A CAPOEIRA NOS QUADRINHOS NACIONAIS: sentidos e significações de personagens capoeiristas

A Pesquisa nasceu de um projeto mais amplo desenvolvido do NUPHEB (Núcleo de Pesquisas em (Núcleo de Pesquisas em História Cultural, Sociedade e História da Educação Brasileira/NUPHEB), que investiga, aprofunda estudos e produz conhecimentos acerca da Capoeira enquanto Prática Pedagógica Não Formal, Pedagogia Social e da Afirmação da identidade negra, com ênfase nas diversas possibilidades envolvidas em sua manifestação. Está em andamento, na fase de levantamento e aprofundamento teórico da temática em tela.

  1. IDENTIFICAÇÃO DO PROJETO
Título do Projeto A CAPOEIRA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS: sentidos e significações de personagens capoeiristas 
Instituição ProponenteUniversidade Estadual do Piauí/UESPI
Dados do ProponenteNome: Dr. Robson Carlos da SilvaRG: 602.769/SSP-PI CPF.:353.983.023-53 Endereço postal: Rua Prof. Dimas Santana, 2170, Cond. Continental, Bloco: África, Apt. 104, Santa Lia, Teresina-PI, CEP: 64058-810Telefone para contato: (86) 99434-4465Endereço eletrônico: robsonuespi64@gmail.com 
Dados da Instituição ExecutoraNome: Universidade Estadual do Piauí/Sigla: UESPI Centro: CCECADepartamento: Curso de Pedagogia/NUPNEB
Palavras-ChaveHistória em Quadrinhos; Personagens Negros; Capoeira; Sentidos e significações; Análise de Conteúdo.
Área do ConhecimentoCiências Humanas: Educação
Duração24 meses

Resumo

O Projeto se propõe a investigar, a partir da imersão aprofundada em um vasto corpus de história em quadrinhos (hq), os sentidos e significações atribuídos a personagens capoeiristas nestas narrativas, aprofundando a leitura e a interpretação de como são abordados, contextualizados e representados aspectos históricos, costumes e peculiaridades de nossa cultura, ancorados na abordagem qualitativa (BOGDAN; BIKLEN, 1999), na análise do conteúdo (BARDIN, 2009; CHIZZOTTI, 2006) e dos enfoques analíticos com texto e imagem (BAUER; GASKELL, 2014). As hq foram escolhidas por se tratar de uma linguagem fortemente marcada por discursos gráficos e narrativos, imagético e textual expressos de forma concomitante e detentora de significativo potencial educacional. A Capoeira surge, inicialmente, por se tratar de objeto de pesquisa largamente difundido e trabalhado no contexto do grupo de pesquisa NUPHEB, o qual coordenamos, bem como por sua significância enquanto ferramenta humana de resistência do povo negro no Brasil. Desta interface o projeto visa contribuir na construção do corpus teórico nas áreas de hq, cultura e história do povo e Capoeira, em suas nuances e interlocuções, para que pesquisadores e pessoas interessadas da sociedade em geral, possam dispor de elementos em suas pesquisas e produção de novos conhecimentos nestas temáticas, por meio do desvelamento de como se processa a construção de personagens negros capoeiristas, em hq, as motivações e intenções dos autores e as representações destes personagens.

Palavras-chave: História em Quadrinhos; Personagens Capoeiristas; Capoeira; Análise de Conteúdo.

1 JUSTIFICATIVA

Tem aumentado do forma significativa o interesse pelas histórias em quadrinhos (doravante, neste texto, identificadas por hq ou quadrinhos) no meio acadêmico e educacional de forma geral, especialmente por trazer à tona temáticas adultas, assim como sua inserção nas provas de vestibulares, despertando acentuado interesse pela análise de seus conteúdos nos mais diversos campos, áreas e possibilidades, sendo inegável seu potencial como produto cultural que, ao se utilizar de forma matizada de imagens e palavras, pode trazer benefícios muito claros para o leitor e especificamente para a educação, visto que, dentre suas abordagens e temáticas, são tratados de todos os aspectos da vida, atingem todas as camadas sociais e trazem contribuição real para todas as disciplinas.

Não existem limites para a aplicação das hq em ambientes educacionais, bastando que os professores conheçam e se aprofundem no universo destas, conheçam os ambientes em que elas são publicadas e circulam, conheçam os autores e saibam escolher aquelas que melhor possam servir ao que objetivam e melhor dialogam com seus interesses didáticos, sendo importante ressaltar que os estudantes têm familiaridade com as hq, tratando-se de uma mídia fácil de ser utilizada e encontrada, além de ajudar na socialização de crianças e jovens, principalmente pela leitura compartilhada, pois os jovens que leem hq demonstram maior aptidão para discutir e trocar ideias.

A importância das hq em seu uso na educação vem crescendo entre educadores, pesquisadores e instituições que discutem alternativas para construção de práticas pedagógicas inovadoras que possibilite a formação de sujeitos críticos e autônomos capazes de construírem seus próprios conhecimentos e colaborar na formação dos demais.

As experiências com o uso das hq na educação têm demonstrado ser uma opção importante no processo de desconstrução dos estereótipos construídos acerca de muitos aspectos, conceitos, práticas, dentre outros, tais como a cultura do povo em sua história, religiosidade e costumes, as mulheres, os pobres, os homossexuais, os infames e renegados, os povos de regiões tidas como não centrais, povos imigrantes, o nordeste brasileiro e sua cultura, povos ciganos, dentre muitos outros exemplos, podendo ser incluída a Capoeira que, muito embora seja largamente utilizada enquanto ferramenta social de formação e reconhecida como patrimônio cultural brasileiro e mundial, ainda sofre esquecimentos e silenciamentos que incomodam, nem se justificam, mas persistem, contribuindo para que se mantenha, ainda, fortemente reafirmada no imaginário coletivo a ideia de um jogo-esporte-arte violento e perigoso, somente praticado por pobres e negros, desorganizado, que pode ser praticado de qualquer forma e em qualquer lugar, ensinado por pessoas sem qualificação, marginais, leigos ou sem formação adequada.

A Capoeira é uma cultura de origem popular, brasileira (SILVA, 2016), nascida e desenvolvida no bojo das manifestações, de vários matizes, do povo, especialmente o povo negro trazido ao Brasil como mão-de-obra escrava, subjugado, desapropriado e humilhado, sendo central situar aspectos desse processo. A vinda dos primeiros africanos ao Brasil ainda não foi totalmente elucidada, porém, podemos entender, a partir de Goulart (1975), que se deu por volta de 1516 e 1526, coincidindo com a fabricação dos primeiros açúcares no país.

O objetivo, como se percebe, foi a produção de bens por meio da exploração da natureza dos países tornados colônias pelos países europeus, em nosso caso particular, de Portugal, gerando lucros exorbitantes, riquezas e acumulação de capital para o sistema colonial, o mantendo pulsante, sendo a mão-de-obra trabalhadora utilizada e muito bem planejado, o sistema de trabalho escravo, cuja base principal de sustentação seria o sistema mercantilista do tráfico negreiro (MATTOS, 2008).

A condição do povo negro, seja em qual sentido se tome, sempre foi de penúria e degradação, tratados que foram como peças, mercadorias humanas, desconsiderada qualquer relação com suas naturezas humanas. Tais eram as viagens de marítimas de travessias longas, extenuantes e mortais, se estendendo por meses, resultando, não raro, na morte de muitos africanos, tanto nas buscas de capturas, quanto durante a travessia da África ao Brasil ou mesmo aguardando para serem embarcados, o que podia durar meses dentro de barrações (MATTOS, 2008), restando aos sobreviventes a servidão negra em solo brasileiro, numa condição de mão-de-obra explorada ao limite da resistência, nas plantações de açúcar, café e algodão, na exploração do ouro, nos criatórios e charqueados, nas ruas das cidades e nos mercados, sempre mal vestidos, subalimentados e pessimamente alojados, taxados de preguiçosos e arredios quando reagiam aos mal tratos, restando as revoltas e resistências, fugas e fundações das comunidades de escravos, os Quilombos. (MAESTRI, 1988).

É a partir dessas políticas de resistências, de luta por libertação e contra o jugo opressivo do branco europeu colonizador que emergem práticas e manifestações culturais de origens negras tais como a Capoeira, aqui criada e desenvolvida enquanto um código humano de resistência e sobrevivência, uma Pedagogia rebelde e profana, se consolidando enquanto umas das mais eficientes armas do povo contra as opressões (SILVA; SILVA; MOURA, 2018).

O cenário para o surgimento destas engrenagens de resistências, se deu notadamente devido ao que Costa (2010) pontuou como a lenta e desigual penetração de ideias emancipadoras e a formação da consciência antiescravista, com os grandes centros urbanos, São Paulo e Rio de Janeiro profundamente apegadas ao sistema escravista e as camadas senhoriais dependentes do trabalho e escravo e resistentes, sobremaneira, às ideias abolicionistas, dado que tais ideias sustentavam tudo o que mais temias, ou seja, a extinção da escravatura e o abandono da visão senhorial, de riqueza, poder e valores de superioridade. 

É de fundamental relevância destacar que, seguindo o pensamento de Costa (2010, p. 513), “O negro marcado pela herança da escravidão, não estando preparado para concorrer no mercado de trabalho e tendo de enfrentar toda a sorte de preconceitos, permaneceu marginalizado.”, sendo, portanto, neste sentido que o cenário de emersão das lutas de resistência se consolida e, até os dias atuais, pleno 2019, continua. A luta do negro continua, por respeito, dignidade e superação de amplas formas de colonialismos que persistem, na discriminação que ronda nossas relações sociais e ainda causam transtornos e desalentos, exigindo sempre olhar atento e impulso rebelde, de tensão contrária e conscientização, de fortalecimento de pertencimento e postura identitária forte.

Neste movimento, nessa dinâmica de resistência, é novamente Mattos (2008, p. 217) quem nos ajuda a lembrar que:

[…] Os africanos e seus descendentes tiveram de enfrentar o difícil acesso ao mercado de trabalho, a discriminação e a exclusão racial. Diante desses novos obstáculos, os negros não se abateram, organizaram-se em associações políticas e culturais, que deram origem a um forte movimento em torno da identidade negra, na tentativa de derrubar os preconceitos e alcançar a igualdade social. Além disso, continuaram influenciando a sociedade brasileira […] compondo assim a cultura afro-brasileira.

Afinal, conforme Mattoso (2003, p. 240), a cor da pele foi se constituindo em nítida fronteira entre ricos e pobres, com o racismo dissimulado presente e, ao mesmo tempo, negado em toda parte de nossa sociedade, mas a herança cultural do povo negro africano é “[…] rica demais para ser apagada, por demais profunda para ser esquecida.”, tal qual a Capoeira, cultura brasileira aqui criada e desenvolvida pelo povo de origem negra e africana.

Propor a investigação acerca de personagens capoeiristas e negros nos quadrinhos, nos conduz de encontro às reflexões de Braga Júnior (2013b) e Cirne (2000), os quais trazem excelentes contribuições sobrea condição do negro em nossa sociedade. Braga Júnior (2013b) destaca que o povo negro somente aparecia nas hq com uma imagem negativa e periférica, especialmente, como produto da mentalidade racista dos produtores de quadrinhos. por outro lado, Cirne (2000), defende que o povo negro tendeu a ser representado nos quadrinhos enquanto coadjuvante dos personagens brancos, caricaturado e estereotipado como feio, inferior e primitivo.

Dentro do universo da Capoeira, como destacado, já bastante discriminado, pode-se identificar, quando se pretende realizar investigações mais aprofundadas, como vimos realizando no Núcleo de Pesquisa em História Cultural, Sociedade e História da Educação Brasileira (NUPHEB), formas preconceituosas e discriminatórias específicas, como por exemplo, a forma como as mulheres são tratadas, quase que totalmente silenciadas e esquecidas em suas histórias, contribuições e sentidos, reflexo direto do predomínio machista e da centralidade e poder prioritariamente nas mãos dos homens, como percebemos claramente ao comparar a quantidade de mestres homens em relação à quantidade de mestras mulheres desta arte, muito embora a participação feminina seja efetiva e significativa, em não raros casos, mais marcante do que a dos homens.

Também, podemos pontuar, é facilmente identificado a forma como os nordestinos, por exemplo, com exceção da Bahia e Pernambuco, são tratados como inferiores, como praticantes de uma Capoeira de menor relevância e com pouca visibilidade quando comparada à Capoeira praticada nos estados considerados “centrais”, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e outros, o que muda de figura, claro, quando os mestres “famosos” se deslocam até estes estados para ministrarem cursos e oficinas, faturando elevados recursos financeiros e, não bastando, fundando filiais por estas bandas, garantindo, assim, uma fonte segura e garantida destes recursos.

Nascida no Brasil, criada pelo povo africano escravizado, enquanto engrenagem social de resistência e rebeldia, de contraposição à violência exacerbada e inumana infringida pelo branco europeu opressor, a Capoeira carrega consigo o estigma da jornada alicerçada pelos ancestrais africanos, aqui se misturando com o povo nativo, os degredados, os pobres, dentre outros. Dessa pluralidade e multiplicidade de culturas e raízes se consolida como pedagogia social, rebelde e profana (SILVA; SILVA; MOURA, 2018), despertando a postura crítica e a inquietude, proporcionando, em seu movimento, que emerjam as diversidades e as muitas possibilidades de estudos críticos acerca da condição e da luta do povo brasileiro por seguir na construção de sua própria trajetória.

Ao escolhermos investigar sobre a Capoeira não podemos nos acomodar em não falar sobre racismo, visto que o racismo é uma prática cotidiana, uma reencarnação de um passado colonial, uma realidade traumática, que tem sido negligenciada, choque violento que coloca o sujeito negro em uma cena colonial, em que é aprisionado como o/a outro/a subordinado e exótico, numa clara tentativa de desconstruir as contribuições da diáspora dos povos africanos no Brasil.

Neste sentido, a história da diáspora forçada do povo africano às Américas é pontuada por um longo silêncio imposto que, seguindo Kilomba (2019, p. 27), deve ser entendida como “Uma história de vozes torturadas, línguas rompidas, idiomas impostos, discursos impedidos e dos muitos lugares que não podíamos entrar, tampouco permanecer para falar com nossas vozes.”. Resistência, ânsia coletiva de ter voz, poder escrever e recuperar essa história escondida, remetendo à ideia de que a história pode ser apropriada e transformada.

Neste sentido, devemos descrever nossa história, atribuindo à escrita a natureza de ato político, ao se tornar oposição plena ao que o projeto colonial predeterminou, logo assumindo a posição de sujeito, aquele que determina suas identidades próprias, que define suas realidades e escreve suas histórias, negando que seja contada e definida por outros.

Kilomba (2019), afirma que escrever é um ato de descolonização, visto que quem escreve se opõe ao projeto colonialista e se torna escritor/a legitimado/a de sua história, reinventando a si mesmo de nodo novo e se opondo ao lugar “Outridade”.

A prática da Capoeira, seguindo esta vereda, e se fundamentando nestes aspectos históricos de resistência, se configura enquanto práxis geradora de autonomia e libertação frente ao conjunto de práticas dominadoras, utilizando os aspectos de africanidade que carrega consigo enquanto fundamento de resistência cultural, de convivência harmônica, de respeito às diversidades e às diferenças e que, seguindo as reflexões de Freire (1997), se coaduna e se consolida enquanto uma educação da libertação e da autonomia, com o rompimento das imposições de origem colonial e opressora.

Proporcionar um diálogo entre estas questões e o corpus teórico que vem sendo construído sobre hq academicamente, mas também socialmente em redes de relacionamento na web, é a intenção principal deste projeto, inclusive trazendo aos espaços da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e do Curso de Pedagogia, porém, dialogando com outros cursos, tais como, Jornalismo, História, Biblioteconomia, Ciências Sociais, Letras e Educação Física, possibilitando a realização de estudos e investigações e, consequentemente, a produção de conhecimento científico nas mais diversas áreas do conhecimento, culminando na publicação de livros, artigos em periódicos científicos e apresentação de trabalhos em eventos acadêmico científicos.

Neste sentido, essa proposta de pesquisa traz como desafio primevo discutir as possibilidades e propor o uso das hq enquanto ferramentas pedagógicas nos currículos escolares, no sentido de construir uma análise acerca das hq que trazem abordagens sobre personagens, homens e mulheres, capoeiristas; aspectos relevantes e ainda pouco explorados da história cultural brasileira, nordestina e piauiense; a construção e os sentidos das abordagens destes personagens em hq; assim como, aprofundar o estudo de novas temáticas suscitadas pelos grupos de estudos e que sejam identificadas em hq, como por exemplo, representações e sentidos acerca da educação, sociedade, relacionamentos humanos, fenômenos sociais recentes, comunicação, circulação de discursos, relações de poder, dentre outros, tudo isso na tentativa de contribuir para a superação dos preconceitos e a construção de novas identidades e novos olhares sobre estes sujeitos, bem como melhorando, em estudantes e professores, a compreensão sobre o potencial, complexidade e riqueza da linguagem das hq.

No resultado do projeto, processual e final, propomos constantemente o trabalho com e a partir de uma Pedagogia que, além de debater sobre os aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais, esteja pautada numa concepção contextualizada e inovadora, centrada na construção de novas relações sociais, fomentando a autonomia e a libertação intelectual de professores e estudantes da UESPI, ao aprofundar a reflexão sobre nossa realidade, integrada a outras realidades, identificando potencialidades, limites e novas possibilidades de investigar, desvelar e redescobrir aspectos da vida que nos inquietam a partir de nossa área e dos objetos de estudos característicos destas áreas, tendo nas hq a fonte de inspiração, de coleta, de análise e de produção de conhecimentos, além de favorecer a construção de uma imagem positiva, exitosa e plena sobre a pesquisa acadêmica científica na UESPI e, de forma ampliada, no Piauí.

As compreensões que nos movem se edificam a partir das reflexões acerca da experiências de grupos sociais que sofrem processos de exclusão e discriminação, tais como os coletivos de Capoeira, não somente no Brasil atual, mas em diversos países pelo mundo adentro, causados fundamentalmente pelo avanço do capitalismo, pelo colonialismo em suas configurações contemporâneas e pelo patriarcado e suas pautas cada vez mais afinadas com processos antidemocráticos.

Concluímos esta justificativa acreditando que o projeto pode ajudar na elaboração e solidificação de uma nova proposta pedagógica para professores da UESPI, possibilitando que assumam o papel social relevante no desenvolvimento de pesquisas científicas em Ciências Humanas cujos produtos tragam contribuições relevantes para a construção de uma sociedade em que valores como a justiça, a solidariedade, a convivência pacífica e a democracia, sejam centrais, cabendo à escola, instituição em que os profissionais formados na UESPI atuarão, o objetivo da formação cidadã e o preparo pleno de pessoas integrais.

2 A PROBLEMÁTICA DA PESQUISA: QUESTÕES E PROBLEMA

As práticas educativas predominantes no Brasil tendem, ainda em tempos atuais de 2019, para a transmissão de valores e saberes tidos e impostos como verdadeiros e universais, mesmo se identificando a distância destes com a realidade de alunos, professores e comunidades, cabendo o questionamento, assentado em inquietações que já trazemos desde a realização de Mestrado em Educação, nos idos de 2002 e que versam sobre o porquê do silenciamento e do esquecimento de processos, histórias, conteúdos que abordem temas e personagens reais, próximos da realidade dos alunos e do imaginário popular.

Neste sentido, assentado nesta inquietação, o projeto em tela pretende analisar, por meio dos discursos e imagens presentes em hq, aspectos relacionados à presença de personagens, homens e mulheres, capoeiristas nesta mídia cultural dialogando com as abordagens e saberes outros identificados e fruto das inquietações surgidas a partir de objetos e interesses de pesquisa em Ciências Humanas no NUPHEB, favorecendo a formação de pesquisadores críticos e autônomos.

No propósito de identificar referenciais fidedignos para sustentação teórica e metodológica do estudo, e a partir de imersão aprofundada no universo das hq nacionais, identificamos que Julio Shimamoto, desenhista de hq, brasileiro de origem japonesa, nascido em Borborema (1939), desenhou muitas histórias de artes marciais, em especial sobre Samurais, sendo conhecido como Samurai dos Quadrinhos Brasileiros, dentre suas artes, quadrinizou em 1979 o roteiro de Hayle Gadelha, sobre as aventuras de um negro capoeirista, o Meia-Lua, todas publicadas na revista Kiai, pela editora paranaense Grafipar.

Além dessa hq, identificamos, ainda, a quadrinização de Julio Shimamoto, em parceria com Luiz Antonio Aguiar, sobre aspectos da história e da personalidade de outro personagem negro e capoeirista, Madame Satã, personagem real, de nome João Francisco dos Santos, figura folclórica da boêmia carioca, em duas hq “Nos Tempos de Madame Satã” e “Esparrelas do Brasil” pela editora paulista Marco Zero.

O personagem Zé Carioca, da Disney, teve uma hq roteirizada por Ivan Saidenberg e desenhada por Renato Canini, publicada na revista de número 1333 em maio de 1977, pela Editora Abril, em que Zé Carioca, incentivado pelo amigo Nestor, decide aprender Capoeira para enfrentar um rival, momento em que personagens reais do universo desta arte são retratados e exaltados em seus feitos.

A partir desses achados, nos despertou o interesse em investigar as motivações destes quadrinistas, o contexto em que foram escritas/desenhadas estas hq, seus propósitos, o porquê e quais os valores trabalhados na personalidade dos personagens, quais mensagens buscava transmitir acerca da Capoeira e de seus praticantes, quais ideologias, os ditos e os não ditos, os silenciamentos e/ou os desvelamentos acerca da Capoeira, ou seja, os olhares dos autores, a compreensão sobre esta arte-cultura-esporte-luta do povo no Brasil, tudo isso imbuído do objetivo de identificar, enquanto problema central de pesquisa, de que forma um personagem capoeirista é abordado, seus sentidos e significações, nas artes de hq

A pesquisa, seguindo um esforço de delimitação do universo explorado, se concentrará na pesquisas em hq, em livros e periódicos postados na internet, e na análise dos trabalhos de quadrinistas, tais como Julio Shimamoto, Ivan Saidenberg e outros, tais como as hq nacionais e internacionais que abordem personagens praticantes ou envolvidos com Capoeira, além das entrevistas realizadas com os autores em livros, revistas, sites, blogs, imprensa livre e outros, no entanto sempre efetivando análises de hq que contemplem aspectos da história e cultura do povo brasileiro, de homens e mulheres como personagens e da capoeira em seus diversas tendências e possibilidades.

2.1 Questões de Pesquisa:

  • Como acontece a abordagem com personagens capoeiristas, homens e/ou mulheres, no universo das hq nacionais?
  • Como se desenvolve a trama dos personagens apresentados na arte quadrinizada de quadrinistas nacionais?
  • Quais motivos podem ser identificados na construção de personagens capoeiristas em hq nacionais?
  • Como podem ser definidas, implícita ou explicitamente, as representações aos personagens capoeiristas em hq?

Assim sendo, o problema da pesquisa foi assim enunciado: Quais os sentidos e significações produzidos nas aventuras dos personagens capoeiristas em hq?

3 OBJETIVOS E METAS:

3.1 Objetivo Geral

  • Analisar os sentidos e significações produzidos nas aventuras dos personagens capoeiristas em quadrinhos dialogando com perspectivas outras.

3.2 Objetivos Específicos

  • Realizar pesquisa bibliográfica em hq, para identificar e analisar criticamente as que versam sobre cultura, história e outros aspectos da cultura do povo no Brasil;
  • Efetivar revisão no corpus teórico acadêmico científico sobre hq;
  • Identificar as diversas abordagens com que professores se utilizam em suas práticas pedagógicas a partir do trabalho com hq enquanto ferramenta didático-metodológico, tendo como base material de cursos em quadrinhos e pesquisas em publicações científicas na web;
  • Analisar como as hq abordam elementos da história social e da cultura brasileira, em particular, por meio de personagens capoeiristas;
  • Verificar como se desenvolve o processo de construção de personagens capoeiristas, em hq, as motivações e intenções dos autores e as representações destes personagens.

4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

As Histórias em Quadrinhos, nos dias atuais, pleno ano de 2109, podem ser encontradas comumente em livros didáticos adotados nas escolas, conseguindo chamar a atenção dos alunos com seus desenhos, com fortes cores ou em preto e branco, e diálogos simples ou complexos, mesmo quando não possuam palavra alguma, deixando o leitor a criar suas próprias conclusões sobre o que ele está vendo, e principalmente, como um instrumento educativo capaz de formar consciências críticas. (VERGUEIRO, 2018), apesar de muitos educadores não conseguirem enxergar o potencial das hq para além de passatempo ou simples atividade de lazer e ócio dos alunos.

No entendimento de Cirne (1982), os quadrinhos podem ser usados na abordagem de diversas temáticas, tais como, política, religião e sociedade, muito embora não se possa negar os problemas que ainda acossam os quadrinhos e os quadrinistas.

Calazans (2004), nos informa que, dependendo da pedagogia e das intenções e objetivos dos professores a partir de determinados conteúdos, pode haver resistências à possibilidade de se aprender com métodos alternativos de leitura, porém, independente disto, devemos atentar para o fato de que o uso em sala de aula dos quadrinhos é recomendado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1998) do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Neste sentido, podemos entender que, enquanto produto difundido abundantemente na indústria cultural, os quadrinhos são capazes de influenciar a formação e a educação de crianças, jovens e adultos, em especial pelo tipo de mensagem e valores transmitidos pelos personagens e narrativas. Dito isso, caberia, antes de mais nada, perguntar o que são realmente quadrinhos?

Segundo Santaella e Nöth (2015, p. 39), as hq podem ser classificadas enquanto imagens gráficas, visto se tratarem de imagens desenhadas ou pintadas, sem, no entanto, nos esquecermos que “A polaridade fundamental entre a imagem como representação visual e como imaginação mental se reflete, em muitas culturas, nas opiniões divididas sobre as imagens”, reflexão que nos ajuda a entender que, a natureza híbrida das hq, fusão de texto e imagem, contribui sobremaneira para a superação dos preconceitos acerca das imagens como fonte de conhecimento inferior ao texto.

Uma vez mais Cirne (1972, p. 23) nos ajuda a entender, propondo a reflexão acerca da compreensão de que quadrinhos são uma narrativa gráfico-visual impulsionada por sucessivos cortes, cortes esses que agenciam imagens rabiscadas, desenhadas ou pintadas. Esse “corte” recebe o nome de “corte gráfico”, e será sempre um local de um corte espaço-temporal, a ser preenchido pelo imaginário do leitor.

Em relação aos conceitos de história em quadrinhos, caso se insista em entender estes conceitos como separados, poderíamos pontuar que se trata de uma determinada história, real ou ficcional, que é contada assentada numa linguagem gráfico-visual, linguagem caracteristicamente híbrida, ou seja, visual (imagens ou linguagem não verbal) e textual (textos ou linguagem verbal).

Uma história das hq carrega consigo aspectos próximos e comuns à história da imprensa, da ilustração e da caricatura, sem esquecermos as relações próximas à história do cinema, rompendo os esquemas da cultura de massa, que com sua linguagem acionam codificações bastante precisas, porém abertas à intervenção poética, provocando respostas críticas mais urgentes. A cada dia surgem mais aportes teóricos dedicados exclusivamente ao estudo das hq, proporcionando que significativa parcela do preconceito que as cercava seja superado, como atentam várias obras e autores com reconhecimento pleno de seus trabalhos, tais por exemplo, Charles M. Schulz, criador da série Peanuts (Minduim ou A turma do Charlie Brown no Brasil) em 1950, que é reconhecido como Freud dos quadrinhos, por conta da profundidade filosófica de suas obras, assim como, Quino, artista argentino criador da personagem Mafalda, em 1962, cujas histórias são carregadas de reflexões e indagações sobre o mundo, relações humanas e política, além das mensagens que se propõem à reflexão acerca de temáticas universais. Além de muitos intelectuais que se utilizaram e se utilizam desta mídia, tais como, Umberto Eco (1976) e Alain Resnais e Frederico Fellini, destacados por Moya, (1977).

Como afirma Vergueiro (2018), seria ingenuidade supor que as hq seriam capazes sozinhas de modificar a educação e a sociedade, porém, jamais se pode negar o poder de atração, concentração e imersão crítica que as hq carregam como potencial, em especial, para crianças e jovens em formação, porém, sem esquecer as relevantes contribuições a pessoas adultas, notadamente, profissionais que se utilizam das narrativas e das múltiplas formas de interpretar a realidade, os problemas, os fenômenos humanos e sociais, as relações, os traumas e medos, as superações, as trajetórias de vida, dentre outros aspectos, em seu trabalhos, sejam educacional ou de outra natureza, bastando pontuar as diversas cartilhas educacionais e de orientação geral que são produzidas por meio da linguagem das hq e utilizadas como mídia preferencial para atingir públicos diversos e maiores, inclusive, pelos próprios governos em suas campanhas de políticas públicas, tais como, vacinação, conscientização ecológica, respeito aos direitos humanos, dentre outros.

Vergueiro (2005), enfatiza que as hq existem, como meio de comunicação de massa, desde o fim do século XIX e, na medida em que se tornaram um elemento de grande influência na cultura popular, também o interesse por elas aumentou em todas as áreas, como atestam as pesquisas acadêmicas sobre hq que têm surgido nas áreas do conhecimento mais diversas, como história, sociologia, artes, literatura, antropologia, educação, favorecendo, sobremaneira, o acesso a informações de qualidade sobre esta mídia.

Foi a partir do aparecimento da rede Internet que a quantidade de recursos informacionais sobre as hq, agora mais do que nunca reconhecida como arte, especialmente enquanto linguagem gráfica sequencial, ou Graphic Novel, tem crescido de forma exponencial, proporcionando o surgimento e a oferta de variada gama de produtos, tanto em forma, qualidade e conteúdo. 

Novamente Vergueiro (2005) corrobora com nosso entendimento ao citar, como exemplo dessa diversidade, a busca realizada na Internet com a ferramenta Google (<http://www.google.com.br&gt;), realizada em 12 de fevereiro de 2005, por meio do termo comics desvelando um resultado que aponta 39.800.000 (trinta e nove milhões e oitocentas mil) indicações de sites que tratam do tema, incluindo sites institucionais de editoras, acadêmicos, pessoais, de personagens, organizados por aficionados de quadrinhos e outros.

De acordo com Cirne (1972), a partir de uma abordagem semiótica, as hq carregam especificidade própria, por serem possuidoras de discursos gráficos e narrativos determinados por linguagem rica e múltipla em códigos; códigos estes que determinam sua especificidade, principalmente pelo desenvolvimento visual e significante da grafia narrativa que a compõe, daí poder ser considerada discurso gráfico narrativo, inclusive, dado vários aspectos característicos, se constituindo em metalinguagem, ampliando o leque de possibilidades que permitem por meio de seu uso, dentre as quais a que esta pesquisa busca, ao trazer luz para refletir e analisar acerca dos espaços que podem se abrir para investigar possibilidades de se abordar culturas importantes para na história social do Brasil como a Capoeira (SILVA, 2016) nas escolas e pro meio do uso das hq como material didático.

McCloud (2004), analisando e propondo trazer à tona o significado das diferenças presentes nos traços, na representação mais realista ou mais esquemática de pessoas e objetos, no uso das cores, entre outros aspectos, presentes nas hq, defende que a linguagem dos quadrinhos permite que, quem olha de fora, não entenda todas as possibilidades e peculiaridades dessa linguagem e, por isso mesmo, tende a desdenhar ou considerar arte menor, a respeito do que o autor entende que é preciso uma compreensão aprofundada sobre essa linguagem para legitimar aquilo que não se compreende totalmente.

Por sua vez, Eisner (2010), considerado pioneiro das hq, em excelente síntese argumentativa, destaca que a arte de contar uma história em quadrinhos é detentora de princípios claros e concisos, se tratando de arte sequencial, cujos fundamentos são forjados a partir do intenso trabalho de integração entre diálogo, anatomia, enquadramento e muitos outros aspectos importantes dessa arte, afinal, como bem expressa Ramos (2009) ler quadrinhos é, acima de tudo, ler sua linguagem, afirmação a partir da qual o autor nos esclarece, assentado num viés linguístico-visual, que as histórias em quadrinhos não se resumem às tirinhas, mas se estendem aos cartuns, charges, as tiras cômicas, tiras cômicas seriadas e tiras seriadas, ampliando o conceito das hq através dos gêneros que pontua de forma clara, multiplicando as possibilidades pedagógicas que, por exemplo, os professores podem utilizar como ferramenta complementar de sua prática docente.

O próprio Ramos (2009) destaca a existência de diversos tipos de quadrinhos que não foram abordados, havendo a necessidade de novos estudos na área, o que, dialogando com o autor, nos evidencia a importância e relevância em nos debruçarmos sobre hq que abordam, diga-se de forma inovadora e ousada, personagens capoeiristas, contextualizando e trazendo à tona aspectos de nossa história social e cultural, ainda abordados timidamente ou de forma estereotipada e seguindo padrões de outras culturas (BRAGA JUNIOR, 2013a), notadamente de países que detém o poderio econômico e determinam padrões, modelos, paradigmas e o que deve ser seguido no universo das culturas de massas.

Braga Junior (2013a) traz contribuição relevante à nossa pesquisa ao destacar a urgência das hq nacionais, em suas temáticas, abordar e incorporar características regionais, ou seja, apresentar aspectos da nacionalidade brasileira Sua crítica, a qual concordamos sobremaneira, enfatiza exatamente o que buscamos entre nossos objetivos fundamentais, notadamente quando, comentando sobre como alguns gêneros passaram a representar e serem assimilados como tema e caracterizar determinada cultura de forma indissociável, afirma que:

É como se o simples fato de constituir uma HQ de super-heróis fosse um atestado de uma mimese dos comics, ou atestar uma produção de colonização ou a falta de criatividade. No Brasil e entre os brasileiros, tal ambientação é constantemente ignorada. Se atribui valor à capacidade de representar o outro de fora ou localidades não-regionais. Como se isso fosse um breguismo que sinalizasse uma falta de criatividade e originalidade e com implicações negativas a produção ficcional. Um profundo engano. Se conhecemos muito bem, na nossa memória gráfica, Nova York, muito é devido aos cenários regionalizados do Homem-Aranha (também devido ao Cinema ou a TV, com as séries, é verdade, mas sigam o raciocínio…). Conhecemos a história do oeste americano, quase de memória, reconhecendo nomes, personagens, ambientações urbanísticas, nomes das nações indígenas e até vestimentas, pelos quadrinhos de bang-bang como Tex, Zagor, entre outros. (BRAGA JUNIOR, 2013a, p. 29).

O teórico segue criticando esta falta de identidade cultural e de brasilidade em nossas hq e, ancorado nas reflexões anteriores neste texto, questiona o que sabemos da nossa cultura? logo em seguida afirmando “Nada ou muito pouco”, sustentando essa afirmação ao refletir que nossas crianças ainda brincam na escola de índio americano e não brasileiro, fazendo roda e cantando com uma pena sobre a cabeça, gesticulando conforme são retratados os índios norteamericanos em filmes estadunidense, incentivadas por suas professoras iletradas e aculturadas, que são levadas e reproduzir, sem terem ciência ou conhecimento, uma cultura estrangeira e que nada tem de nacional, pois o índio brasileiro nunca fez isso e nunca fará estes gestos e sinais.

Este aspecto é caracterizado como um “desprestígio iconográfico” e acaba por contribuir para que não identifiquemos nada de interessante na cultura e nos modos e costumes de vida de nossos índios, inclusive, nem mesmo, com raras exceções, conhecemos ou temos afinidade com seus nomes, tais como, “Cuxá, Fulniô, Xukuru e Kapinawá”, nações estas que, infelizmente, não significam muita coisa ou nada para muitos jovens, dado que “[…] suas histórias de guerra, seus mitos e até sua aparência não chegaram até nós. O espírito do coiote ou da águia é conhecido pelos brasileiros, mas o do lobo guará ou do carcará, não faz sentido nenhum, […] até se desconhece a aparência destes animais.” (BRAGA JUNIOR, 2013a, p. 30).

Dialogando com este autor, podemos identificar aspectos próximos como o que se faz em relação com a cultura do povo no Brasil, particularmente, para esta pesquisa, com a Capoeira, espécie de código e ferramenta pedagógica de movimento e reação do negro e do povo contra os abusos infligidos pelos senhores brancos que invadiram o Brasil, se apossaram de suas riquezas e relegaram as culturas aqui existentes, bem como, as culturas, tal as Africanas, que vieram forçadas na condição subalterna e violenta de escravizados, e que, por se tratar de instrumento de resistência, foi e continuada sendo marginalizada, destoada de seus propósitos e intenções, de seus valores e de suas contribuições. (SILVA, 2016).

A Capoeira pode ser compreendida como atividade sociocultural, uma prática cultural, uma pedagogia social que nasceu no seio de uma população escravizada, oprimida e discriminada e que, durante a sua dinâmica histórica, foi conquistando reconhecimento de disciplina presente nos currículos de escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio e de significativa parcela de universidades e faculdades brasileiras, além de galgar espaços em muitos países pelo mundo afora, conquistando adeptos das diversas descendências e nacionalidades, porém sempre mantendo a característica de brasilidade, como cultura nacional, carregando em seu bojo aspectos de luta, esporte, dança, jogo, musicalidade, malícia, filosofia de vida e de atividade detentora de elevado potencial de inclusão social e de fortalecimento de personalidades.

Na concepção de Silva (2016, p. 25)

O contato com e entre os corpos, qualidade fundamental na capoeira, tende a ser uma condição essencial de aprendizado e respeito ao afetivo, tendo em vista que muitas crianças e jovens não possuem em seu cotidiano relações, tais como, o abraço, o aperto da mão e o sorriso sincero, o que na capoeira é essencial, sendo o contato do corpo com o outro uma constante. O ensino da capoeira cria ricas possibilidades pedagógicas de promoção, desenvolvimento e manutenção da autonomia e da descoberta de valores essenciais para uma comunidade, grupo ou sociedade que se pretenda democrática, como a valorização do senso de criticidade, ressaltados pelo contato com novas formas de leituras e de compreensão da história do povo, percebidas e contadas por meio das memórias de outras pessoas que não a detentoras dos discursos históricos oficiais, como é o caso dos mestres de capoeira […].

Dentre as possibilidades pedagógicas da Capoeira, e que reforçam ser objeto de investigação desta pesquisa, podemos destacar o sentido de grupo, o movimento que se efetua em busca da identidade de ser pertencente a determinado grupo e que pode muito bem ser pontuado enquanto uma pedagogia, visto, trazendo novamente as ideias de Silva (2016, p. 26),

Pertencer a um grupo e fazer parte das aulas de capoeira, além de possibilitar a vivência e reflexão sobre o jogo, proporcionando aos alunos entender como e porque se organiza pedagogicamente uma roda de capoeira, assim como a capacidade de identificarem o seu papel naquele jogo, leva ao entendimento sobre a importância de se valorizar os conhecimentos adquiridos por meio dos saberes dos mestres dessa arte, fundamentos que se constituem numa espécie de código e estatuto de conduta, como por exemplo, na elaboração tática das formas de se jogar, procurando assimilar novos conhecimentos e de superar as dificuldades surgidas.

Para concluir esta revisão bibliográfica, trazemos as análises de Braga Junior (2013b) e Nobu Chinen acerca da representação do negro nas hq; em que o primeiro investiga a ambientação de personagens negros nas revistas da Marvel, editora estadunidense líder mundial em publicação, distribuição e vendas de hq, especialmente de super-heróis, enquanto e segundo, aprofunda a representação do negro e afrodescendentes nas histórias em quadrinhos brasileiras. A ambientação de personagens negros nos quadrinhos, conforme suas análises, atinge diferentes estágios e posições conforme a época, a editora e o país, porém é possível identificar três momentos temáticos: a inserção dos personagens negros em situações periféricas, tratados como um personagens secundários e com sérias limitações em comparação com os padrões de normalidade instituídos na história ou no universo das publicações; a associação com a vilania, com presença significativa de vilões negros, quase sempre em associação com o mal, o errado e problemático; e os casos de relações afetivas e matrimoniais inter-raciais, centrais para avaliar as relações sociais e políticas entre os grupos. 

As reflexões de Braga Junior (2013b) concluem afirmando que a presença de personagens negros nas hq foi sempre simbólica, possivelmente cumprindo a lógica cotista nos grupos e com aparecimento esporádicos, ou quando possuem destaque, envolvidos em narrativas que revelam relações entre eles próprios, sem se envolverem diretamente com os outros heróis (brancos). 

Suas considerações, guardadas as peculiaridades de uma análise que se deteve exclusivamente sobre um universo de produção de quadrinhos, extremamente comercial e não produzido por autores negras e negras ou de pessoas envolvidas com agendas ideológica e política defendida pelos grupos minoritários, expressam o quão fortes podem ser os reflexos e os impactos sociais que estas publicações, dada sua ampla aceitabilidade no mundo todo, proporcionam nas representações da identidade negra.

Por sua vez, Chinen (2019,) numa proposta inédita, dado a pouca importância denotada ao tema, bem como, sua intenção em realizar um levantamento aprofundado de todos os personagens criados, imerge nos estudos sobre o negro e os afrodescendentes nos quadrinhos brasileiros, numa trajetória investigativa que se debruça de forma rigorosa sobre a construção da imagem do negro nas narrativas gráficas, rebuscando os registros primeiros da presença dos africanos no Brasil, na condição de subalternos a servir ao propósito colonizador, branco europeu, alcançando as produções mais atuais e autorais. 

O autor expõe a face cruel e real de um Brasil preconceituoso e racista, muito embora, reforçando que se trata de uma face negada e se configurando de forma velada e disfarçada, ao mesmo tempo em que demonstra que na historiografia brasileira surge uma crescente, muito embora insuficiente, presença de autores negros, o que traz contribuições relevantes e significativas sobre a  abordagem representativa do negro nos quadrinhos, situando as contribuições fundamentais da diáspora africana ao Brasil.

Trazendo à tona dados oficiais que comprovam a imensa população negra do Brasil, Chinen (2019), questiona onde estão, então, os pretos e pardos nos meios de comunicação, incluindo as histórias em quadrinhos, para, em seguida, se assentar na percepção de que a quantidade de personagens negros nas Hqs dá sinais de ser muito baixa e, quando são abordados, geralmente são colocados na posição de coadjuvantes, serviçais ou vilões.

Neste contexto, é significante saber que as imagens da negritude sobre as quais nos permitiram defrontar não possuem nada de realistas, tampouco gratificantes, pois, “Que alienação, ser-se forcada/o a identificar-se com os heróis, que aparecem como brancos, e rejeitar os inimigos, que aparecem como negros” (KILOMBA, 2019, p. 39, grifos da autora), nada mais do que formas de estratégias elaboradas para demarcação e afirmação de identidades hierarquizadas e que, seguindo Almeida (2019), dentre muitas, podemos destacar, importante para a pesquisa em tela, a produção de uma ampla reserva de imaginários culturais, sendo os quadrinhos, dado seu alcance e penetração social alargada mundialmente, uma mídia privilegiada neste sentido.

Assim sendo, podemos entender enquanto tese central de Chinen (2019) a consideração de que, durante longo período, os personagens negros foram abordados nos quadrinhos brasileiros de forma simplificada e socialmente inferiorizados, num claro sentido, seguindo as reflexões de Almeida (2019), cuja lógica encaminha para a reprodução das formas de desigualdades e violência que servem de base e molde à vida social contemporânea, apontando, por outro lado, pistas que nos levam a identificar, nas últimas décadas, o afloramento de novas narrativas compromissadas com a transformação dessa realidade.

Feitas as considerações, assentadas em dialogando com os autores escolhidos, seguiremos no propósito de identificar, selecionar, analisar e criticar os sentidos e significação que autores e autoras quadrinistas denotam a personagens homens e mulheres capoeiristas em hq, aprofundando a contextualização dada e o olhar dispensado a nossa cultura, sociedade, costumes, valores e outros, sem esquecer de contribuir para o corpus teórico produzido sobre hq na academia, trazendo análises e identificando pontos importantes sobre a narrativa e a estética das hq.

5 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Esse trabalho será desenvolvido tendo como base o processo de pesquisa qualitativa, tendo em vista que ela responderá questões particulares que, segundo Minayo (1994, p. 21), se preocupa com um nível de realidade que não pode ser quantificada, ou seja, trabalha com o universo de significados, motivações, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

Como situamos nossa investigação no campo educativo, defendemos, apoiados nas ideias de Bogdan e Biklen (1994), que a investigação qualitativa incide sobre diversos aspectos e, mesmo apresentando muitas diferenças entre si, diversas formas de abordagens podem cair na rubrica de qualitativa. Além disso, os dados sobre os quais nos deteremos, serão produzidos a partir de textos e imagens, analisando-os em todo a sua riqueza e respeitando a forma com que nos apresentarão, sendo de maior significância o processo de produção destes e não simplesmente seus produtos.

É assaz importante destacar que os significados serão de importância central na investigação, centrando nossa compreensão na apreensão das diferentes perspectivas e na percepção acerca das experiências e processos sobre os quais nos deteremos no contexto das hq e demais textos selecionados como fontes.

Nos utilizamos do pensamento de Chizzotti (1995), para o qual a pesquisa qualitativa possibilita a ligação entre a realidade e os sujeitos, além de compreender uma articulação indissociável entre objetividade e subjetividade, o que, em nossa pesquisa, se demonstra apropriado no sentido de nos esclarecer possíveis diferenciações entre concepções, representações, sentidos e significações acerca de personagens de hq.

A investigação, enquanto modalidade, pode ser classificada, seguindo Salvador (1986), de bibliográfica, pois nos utilizaremos de fontes escritas, principalmente das revistas de histórias em quadrinhos e outros textos relacionados a produção, edição, divulgação, circulação e crítica destas hq, notadamente na recolha das informações acerca do problema levantado.

Dessa forma, trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, e bibliográfica na medida em que busca interpretar o fenômeno estudado nos aportes destas naturezas, atribuindo significados e sentidos aos mesmos, apoiando-se em documentos já criados ou em teses dos autores anteriormente citados, além nas narrativas de autores especialistas na área das hq.

A preferência por esse tipo de mídia ocorreu pelo fato de os quadrinhos assumirem lugar central no contexto das produções culturais, carregando consigo marcas de um histórico de artefato adorado e/ou odiado no decorrer das décadas que se seguiram após seu surgimento, há pouco mais de 100 anos, conseguindo espaço, inclusive, na educação.

O levantamento bibliográfico e se assentou na leitura e interpretação das obras de teóricos que investigam o tema, tais como Moacy Cirne e Waldomiro Vergueiro, que abordam os quadrinhos dentro do seu contexto histórico e sua interface com a cultura, educação e comunicação, notadamente as interfaces entre hq e Pedagogia, aqui entendida enquanto todo movimento humano, intencional e em busca de sentidos e significados sobre suas lutas, atuações e ações. 

Compreendemos o texto enquanto a mensagem, a fala, o discurso dos sujeitos, em cujo contexto se identifica o contexto social, cultural, pessoal, político, dentre outros, dos personagens que fazem a experiência do universo investigado, identificando a disposição de encontro com a crítica ou com a alienação. O universo dos sentidos e significados se dá num contexto concreto, em nosso processo, nas tramas e narrativas das hq, em que deverá ocorrer a busca pela captação dos discursos, modo de dizer e de interpretar o fenômeno sobre o qual nos debruçaremos, os ditos e não ditos, silenciamentos e, principalmente, as intenções em que se conceberam e produziram os textos, em que os pesquisadores desempenharão o papel de intérpretes da realidade expostas diante deles.

A linguagem, neste sentido, surge enquanto instrumento expressivo para a possibilidade da intercomunicação, de dominação, de resistências múltiplas e diversas, podendo alienar e libertar, constituindo um sistema linguístico específico. Assim sendo, entendendo que o discurso sempre fala de alguma coisa exterior a si, acabamos por nos orientar a olhar para fora do sistema linguístico, descortinando os sentidos acerca dos sujeitos que manifestam os discursos.

5. 1 Procedimento para coleta de dados

A coleta dos dados será realizada através do levantamento, leitura e análise de artigos, revistas, textos de sites, blogs, documentários, vídeos, hq, graphic novel (textos de capa, contracapa, orelha, apresentação etc.) e documentos encontrados em bibliotecas, arquivos pessoais e na web.

O levantamento dos dados será realizado tendo como referência três questões principais: produção de hq, caracterização, contextos, linguagens e personagens; presença de personagens capoeiristas em hq; e os sentidos e significados atribuídos, explicita ou implicitamente, aos personagens capoeiristas em hq. Posteriormente estas questões serão transformadas em blocos orientadores de estudo e análise.

A análise deste material bibliográfico se orientará a partir das concepções da análise do conteúdo de Bardin (2009) que remete à descrição dos conteúdos das mensagens, centrada na pré-análise, exploração do material e na análise e interpretação dos resultados, sendo que, na pré-análise faremos leitura ondulante, para a escolha das obras que serão analisadas, além de dimensionar as análise; na fase de exploração do material, serão organizadas as informações e compiladas segundo características comuns identificadas; e finalmente, a análise interpretativa destas informações, ou de tratamento das informações, no propósito de orientar a produção teórica pretendida. No geral, nossa pretensão versará sobre a análise do corpus de produções em hq e outros textos relacionados com esta mídia.

A produção de um quadro demonstrativo das informações que nos permitam identificar e organizar os sentidos e significações de personagens capoeiristas em hq se constituirão em plataforma de exposição dos achados, bem como de fatos peculiares que possam emergir das análises. Nestes quadros, disporemos as informações organizadas a partir das aproximações dos sentidos e das significações identificadas nos textos investigados, deixando claro que transitaremos pelo universo da comunicação posta neste material e que envolvem as motivações, valores, atitudes, expectativas, entendimentos, ideologias e representações contidas nas histórias produzidas.

Os documentos que comporão as fontes da pesquisa serão hq, textos de blog, sites, mídias eletrônicas, livros que contenham textos sobre hq, artigos em jornais e revistas sobre hq, textos de entrevistas de criadores de hq (roteiristas e desenhistas) e qualquer outro documento de natureza bibliográfica que contenham informações relevantes para o escopo da pesquisa, documentos que possam fornecer evidências singulares e informações valiosas sobre o cenário da pesquisa.

A pesquisa será desenvolvida em quatro etapas. Na Primeira etapa será efetivado momento de organização da pesquisa, ramificada em um momento de constituição da equipe de pesquisadores, que efetivará a coleta e a análise dos dados e os levantamentos e contatos iniciais com autores, administradores de sites, blogs e outros espaços na internet. A Segunda etapa corresponde propriamente ao levantamento das fontes da pesquisa. Na Terceira etapa ocorrerá a organização dos dados produzidos na pesquisa. Finalmente, na Quarta etapa, acontecerá a análise e difusão dos achados finais.

5.2 Resultados Esperados

Com a realização dessa pesquisa, espera-se atingir os seguintes resultados:

– Contribuir com a produção do conhecimento em Ciência Humanas, em especial, na temática em tela, considerando publicações dos resultados da pesquisa em eventos acadêmico-científicos, submissão e publicação de artigos em periódicos da área educação, comunicação, linguagens e áreas afins, bem como a publicação de obra bibliográfica coletiva de autores envolvidos na pesquisa;

– Consolidar o Núcleo de Pesquisas em História Cultural, Sociedade e História da Educação Brasileira (NUPHEB), na Universidade Estadual do Piauí/UESPI, no sentido de fortalecer e integrar os demais grupos de pesquisa tanto da UESPI, quanto de outras universidades sobre a temática central e as temáticas que atravessam e dialogam com a proposta;

– Contribuir na construção do corpus teórico nas áreas de hq, cultura e história do povo e Capoeira, em suas nuances e interlocuções, para que pesquisadores e pessoas interessadas da sociedade em geral, possam dispor de elementos em suas pesquisas e produção de novos conhecimentos.

– Realizar análises críticas sobre como as hq abordam elementos da história social e da cultura brasileira e, em particular, da história e outros aspectos da cultura do povo brasileiro, por meio de personagens capoeiristas;

– Efetivar revisão no corpus teórico acadêmico científico sobre hq;

– Identificar as diversas abordagens com que professores se utilizam em suas práticas pedagógicas a partir do trabalho com hq enquanto ferramenta didático-metodológico, tendo como base o material do Curso de Extensão Quadrinhos em Sala de Aula: estratégias, instrumentos e aplicação da Fundação Demócrito Rocha em parceria com a Universidade Federal do Ceará e pesquisas em publicações científicas na web;

– Verificar como se desenvolve o processo de construção de personagens capoeiristas, em hq, as motivações e intenções dos autores e as representações destes personagens.

5.3 Potencial de impacto dos resultados do ponto de vista técnico-científico, de inovação, difusão, socioeconômico e ambiental

Temos expectativas excelentes em torno resultados da pesquisa, notadamente pelo acentuado grau de inovação, ao propor diálogos acadêmicos entre produções nas áreas das Hq e Capoeira, sendo que, o impacto central se dará pela parceria com outras IES para difusão das pesquisa, troca de ideias acerca dos achados produzidos e dos métodos empregados, refletindo sobre aplicações em outras pesquisas, assim como, acertos acerca de treinamentos e formação sobre os conhecimentos adquiridos nas temáticas que cercam o estudo.

Dentre as principais contribuições científicas ou tecnológicas da proposta podemos destacar que achados da pesquisa, deverão contribuir cientificamente, a partir das perspectivas das Ciências Humanas, para o desvelamento do processo histórico de criação, roteirização e produção de Hq em que a participação e atuação de personagens capoeiristas seja efetiva, favorecendo o alargamento do campo de possibilidades de se aprofundar os pressupostos educacionais desta arte, por meio de uma mídia múltipla como as Hq, como também, de forma indireta mas não menos importante, na construção do corpus teórico da história da educação, em especial ao contar a história cultural do movimento de homens e mulheres em busca de espaço, vez e voz, movimento este que se caracteriza enquanto uma Pedagogia Social, protagonistas de uma história ainda por se contar, revelando, ainda, a forma com que participam ativamente desse processo, desnudando suas angústias e alegrias, seus anseios, desejos, avanços, recuos, tensões, dificuldades, reivindicações, ideais, concepções, lutas, dentre outras questões, rompendo silêncios e superando dificuldades, conseguindo falar de si e de suas experiências vivenciais enquanto pessoas, capoeiristas e educadores.

A pesquisa possibilitará, em sua execução, enquanto principal impacto educacional, contribuir de forma significativa com o rompimento do silenciamento que, insistentemente, se justapõe às memórias e às histórias de pessoas que desenvolveram e seguem desenvolvendo projetos, ações e práticas relevantes no cenário sócio-educacional e ocupando lugar central no imaginário popular de nossa gente, preenchendo lacunas existentes na memória e imaginário popular, notadamente, pelo desvelamento das práticas desenvolvidas pelos “anônimos” da historiográfica oficial.

Por outro lado, trará contribuições relevantes para o levantamento de novas fontes da pesquisa educacional, tais como, fontes biográficas e autobiográficas orais e escritas, documentos imagéticos, textos e escritos não oficiais (cartas, diários, informativos, jornais e outros) possibilitadas por meio das hq, e o fomento de pesquisas e estudos sobre estas temáticas e suas interfaces.

Ao analisar os sentidos e significações dos criados de hq ao representarem estes personagens, contextualizando a história e a cultura nacional, a pesquisa desvelará aspectos relevantes das práticas educativas não formais, revivendo as singularidades que marcam a condição de pessoas comuns, contribuindo sobremaneira para uma leitura crítica dos aspectos sociais, culturais e políticos de nossa realidade próxima, a partir de um movimento que entrelaça o singular e o coletivo, o formal e o não formal, considerados, aqui, enquanto faces ou aspectos de uma unidade.

Finalmente, podemos destacar os relevantes impactos da pesquisa no fortalecimento dos estudos e das investigações acadêmico-científicas desenvolvidos pelos grupos de pesquisa da UESPI, em especial do NUPHEB/CCECA, ampliando as possibilidades de inserção de alunos e professores na concretização de pesquisas no campo de conhecimento das áreas temáticas abordadas, contribuindo na ampliação do volume de produções e publicações científicas de nossos professores e alunos, notadamente de caráter inovador e desafiador, ampliando, ainda, o fomento ao PPG em Educação da UESPI e concedendo, dessa forma, maior visibilidade científica à UESPI.

5.4 Perspectivas de colaborações interinstitucionais do projeto

O projeto tem a perspectiva de colaboração, além da Universidade Federal do Ceará/UFC, do Observatório de História em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, destinado a divulgação de pesquisas, publicações, eventos e produções acadêmicas com hq e áreas correlatas.

5.5 Disponibilidade efetiva de infraestrutura e de apoio técnico para o desenvolvimento do projeto

O Projeto se situa no contexto do Núcleo de Pesquisas em História Cultural, Sociedades e História da Educação Brasileira/NUPHEB, do Centro de Ciências da Educação Comunicação e Artes/CCECA da Universidade Estadual do Piauí/UESPI, no Campus Torquato Neto com disponibilidade da seguinte infraestrutura: biblioteca central, sala de estudos dos grupos de Pesquisa, com acesso à Internet, acervo bibliográfico dos grupos da pesquisa, laboratório de informática e Gibiteca do NUPHEB.

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BRAGA JUNIOR, Amaro Xavier. A ambientação de personagens negros na Marvel Comics, Identidade! São Leopoldo, v.18 n. 1, jan.-jun. 2013b, p. 03-20. Disponível em:< http://periodicos.est.edu.br/identidade> Acesso em: 20 ago. 2018.

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CIRNE, Moacy. Para ler os quadrinhos: da narrativa cinematográfica à narrativa quadrinizada. Petrópolis/RJ: Vozes, 1972.

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Um comentário sobre “A CAPOEIRA NOS QUADRINHOS NACIONAIS: sentidos e significações de personagens capoeiristas

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