ENTRE O ATO DE CONTAR HISTÓRIA E DIGERIR A VIDA E O ASSOMBRO DE SE MANTER HUMANO NUM MUNDO SEM HUMANIDADE

Robson Carlos da Silva.

Difícil dizer o que nos assombra mais se as passagens, narradas em tempo presente, das cenas e tramas por meio das quais desenvolve os dramas dos personagens, se as poesias que desnudam suas personalidades ou se os contos que trazem à tona o desespero que os levou a se envolver na história narrada.

“[…] desnudar a caça perseverante pela fama, marca indelével da raça humana e que, nos tempos modernos, mais do que nunca, é escancarada por meio das plataformas eletrônicas e meios comunicacionais.”

Com criticidade afiada, assentado numa narrativa tensa, repugnante, repulsiva e brutal, escrita de maneira detalhista e pormenorizada, além de extremamente sádica, visto que, como de costume, se utiliza de personagens incomuns e esdrúxulos para descrever situações violentas e mutilações execráveis, Chuck Palahniuk, por meio da obra Assombro: um romance de histórias (2016), desconstrói a condição humana essencializada como peculiar e profunda, como possuidora de qualidade ou substância especial, desvelando que, na verdade, nossa condição antes de simbólica é animal, trazendo-a mais próximo de desespero humano, como diária Kierkegaard (2010), isso tudo ao logo de 21 poemas e 23 contos, permeados pela narração dos acontecimentos em tempo presente por um narrador que, ao que tudo indica, fazia parte do grupo de 18 pessoas, ou cobaias, como cogita na primeira página do romance, inteligente e inovadoramente organizado para desnudar a caça perseverante pela fama, marca indelével da raça humana e que, nos tempos modernos, mais do que nunca, é escancarada por meio das plataformas eletrônicas e meios comunicacionais.

Na obra, Palahniuk utiliza um desafio disposto em um anúncio de jornal para que, supostos escritores, passem meses isolados das distrações sociais, mundanas, familiares e, neste sentido, sejam capazes de aflorar suas mais primorosas ideias e produzir as obras primas de suas vidas.

Becker (2013), em seu excelente ensaio sobre a negação da morte, caracteriza este comportamento de heroísmo e defende que todos nós, de alguma forma, estamos o tempo todo em busca de um heroísmo […]”

O assombro do título da obra se inicia quando os 18 personagens que aceitam o desafio descobrem que, transportados por um ônibus, foram enclausurados em um lugar, acessado por um beco estreito e de localização indefinida, sem janelas e com as portas trancadas, sem nenhuma forma de serem abertas por dentro, um cenário de apresamento, mas que, de acordo com o personagem descrito como uma espécie de precursor, contém todas as possibilidades e as ferramentas necessárias para a criação literária para as quais foram desafiados, porém, e aqui está um dos pontos altos da trama, é necessário que os participantes se dispam e enfrentem seus medos, medos estes que, somente a leitura atenta evidencia, na verdade são frutos da fraude que somos, a sordidez da qual somos capazes de nos utilizar para mascarar nossa insignificância e banalidade, tudo para o alcance da fama, para se tornar, mesmo que por ínfimos períodos de tempo, como em várias passagens os personagens deixam evidente, famosos, reconhecidos como grandes e capazes de algo fantástico e único.

Becker (2013), em seu excelente ensaio sobre a negação da morte, caracteriza este comportamento de heroísmo e defende que todos nós, de alguma forma, estamos o tempo todo em busca de um heroísmo, uma ação, um ato, uma realização, alguma coisa marcante que demonstre que somos importantes, uma coisa que nos traga destaque, nos conduzindo ao entendimento de que tudo pode ser fruto de egos elevados e superestimados.

Não tem como não associarmos a obra aos reality shows, como por exemplo, o Big Brother Brasil, exibido pela rede Globo de Televisão, onde pessoas são trancafiadas em busca de um prêmio, uma fama, um heroísmo em suas vidas, reconhecimento e, certamente, dinheiro e um lugar no altar das celebridades, ao custo de terem suas vidas e seus medos expostos, claro, por meio da representação de papeis que, supostamente, significam as pessoas no mundo real, e que são capazes de fazer qualquer coisa, de tramar, de vender a alma ao diabo, desde que saiam vivas, vencedoras e famosas.

Não é a primeira obra de Palahniuk que nos incomoda e nos inquieta, em especial pela forma crua com que aborda e narra detalhes sórdidos dos seres humanos e seus relacionamentos sociais, físicos e psicológicos, minuciosamente descritos e que desnudam nossa frágil condição de vida, mais ainda quando tenta transparecer toda a mesquinhez, sordidez, vileza e infelicidade das pessoas na ânsia de mascarar sua insignificância, evidenciando, conforme comenta o narrador do romance, “Nosso mundo só de humanos, um mundo sem humanidade” (PALAHNIUK, 2016, p. 470), bem assim, quando, em outra passagem, defende que os animais existem para nos lembrar que somos, ou precisamos ser, humanos.

Diante da expectação da morte e o pavor que inculca, todo ser humano, toda pessoa, concentra suas forças e atenção na infundada perspectiva de evitar sua fatalidade. Talvez, muitos acreditam, esta seja a principal apreensão que nos persegue a vida toda. Como se procurássemos desesperadamente uma forma de, conforme Becker (2013, p. 11), vencê-la pela “[…] negação de que ela seja o destino final do homem”.

Mais adiante, já próximo ao final da história, uma voz que não parte de nenhum dos personagens, um eco que vem de lugar nenhum, por detrás de uma luz, um clarão que surge e que dói só de olhar, dada a condição de extrema penúria e fragilidade em que encontram as pessoas, grita “Vocês estão encenando para um auditório vazio” (PALAHNIUK, 2016, p. 474), numa clara alusão à frágil condição da vida pós-moderna, com seus valores vazios, frívolos e efêmeros, com a predominância de individualização jamais vista na história e que rompe com o instituído nos séculos passados, sendo a indiferença e o narcisismo comportamentos predominantes (LIPOVETSKY, 2005), como se estivéssemos o tempo todo encenando aquilo que não somos, na ânsia de demonstrarmos algo que possuímos ou conquistamos, geralmente relacionado à fama, para apreciação de ninguém específico, mas à sociedade como um todo, ou seja, uma plateia inexistente num auditório vazio.

A metáfora é certeira e, no contexto da obra, reforça sobremaneira a banalidade na natureza humana limitada, como nosso medos e temores são superados, não por elevação de caráter, mas sim pela busca de superar o outro, no caso em tela extinguindo a existência deste, seja por quais meios forem, estratégias ou ferramentas utilizadas, no intuito de atingir o prêmio anunciado ou, no máximo, dividi-lo com os poucos sobreviventes, e ai Palahniuk, sarcasticamente, abusa das mutilações, das bizarrices, nojeiras, baixarias e situações esdrúxulas, conforme destacado aqui, de forma cirúrgica, minuciosa, inclemente e sórdida. É para poucos.

Palahniuk (2016, p. 490) enfatiza sua crítica à efemeridade da sociedade atual, em que predominam valores vazios, sociedade midiática, de busca por fama instantânea, de se tornar conhecido, ser reconhecido por algo inusitado e heroico (BECKER, 2013) na passagem: “[…] Poluição, superpopulação, doença, guerra, corrupção, perversão sexual, assassinato, vício em drogas…talvez não estivesse pior do que já fora […]”.

No desenrolar da narração, apesar de toda crueza característica do autor, não tem como não se apegar aos personagens de Assombro, assim como nos afeiçoamos por Madison Spencer, a garota de 13 anos em sua jornada, após morta, pelo inferno, em Condenada (2014), cada qual tendo seus medos e crimes revelados aos poucos, em estórias contadas de maneira formidável, que nos mantém ligados à trama, atentos, curiosos e apreensivos com as próximas cenas, com destaque para o uso de flashback com maestria e excelência, quase não se percebendo a interrupção de sequência cronológica da história, tampouco que se trata da intercalação de eventos anteriores, dada a primazia e a intimidade com que Palahniuk manobra sua narrativa e nos releva a identidade de Camarada Escárnia, Conde Calúnia, Irmão Justiceira, São Sem-Pança, Miss Espiro, Lady Mendiga, Chef Assassin, Miss América, Mão Natureza, Elo Perdido, Diretora Negação, Agente Fuxico, Duque dos Vândalos, Reverendo Ímpio, Casamenteiro, Baronesa Congelada, Condessa da Antevidência e Sr. Clark, além do Sr. Whittier, do gato Cora Reynolds de Diretora Negação e o bebê não nascido de Miss América, cada qual com sua personalidade genialmente demonstrada, de forma simples, porém tocante, sempre pontuada de acentuada crítica social.

“Diante de tamanha morbidez ainda podemos nos salvar e salvar o mundo […]”

A obra, em nosso entendimento, se constitui, para além de uma simples história, em mais um tratado do absurdo (Sr. Whittier, velho e empanturrado de Tetrazzini, morre, passa a assombrar os vivos e, no final, retorna como garoto de 13 anos), cujo pano de fundo seria o descortinar da condição humana no contexto de uma sociedade do espetáculo midiático em busca do domínio da fama imediata, muito embora instantânea e efêmera, aqui tratada com sarcasmo, ironia e vigor escatológico, condição essa que representa, nas palavras do Sr. Whittier, “[…] o domínio ilimitado das trevas, da podridão e da Morte Rubra estendendo-se sobre tudo […] Podemos ir agora?” (PALAHNIUK, 2016, p. 477), conceituando a condição das pessoas na atual sociedade e, ironicamente, indagando se estamos prontos para continuar, nos garantindo que nossas gerações futuras “[…] sempre enfrentarão guerra, fome e pestilência. Porque amamos a dor. Amamos o drama. Mas nunca, nunca vamos admitir isso.” (PALAHNIUK, 2016, p. 478), pois sempre é isso que fazemos.

Diante de tamanha morbidez ainda podemos nos salvar e salvar o mundo, “Se pudermos perdoar o que fizeram conosco, se pudermos perdoar o que fizemos com os outros, se pudermos deixar todas as nossas histórias para trás. De nós sermos vilões e vítimas. Só assim talvez possamos salvar o mundo. Mas ficamos ali, sentados, esperando sermos descobertos em meio ao sofrimento. Enquanto ainda somos vítimas, esperando sermos descobertos em meio ao sofrimento.” (PALAHNIUK, 2013, p. 479) e, concluindo as reflexões dessa sucinta escritura, seguindo o desafio proposto na obra, questionamos se afinal de tudo “Seria tão ruim assim? Sermos as últimas pessoas no mundo? Por que o mundo não pode terminar do mesmo jeito que começou?”. Aceite a proposta, embarque no ônibus, se retire das cenas mundanas e, confinado, mergulhe de corpo e alma nos incríveis contos e poesias, ou no romance de histórias, assombrosamente narradas pelo mestre do macabro.

Referências

BECKER, Ernest. A Negação da Morte: uma abordagem psicológica sobra a finitude humana. Tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2013.

KIERKEGAARD, Sören. O Desespero Humano. São Paulo: Unesp, 2010.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução: Therezinha Monteiro Deustsch. São Paulo: Manole, 2005.

PALAHNIUK, Chuck. Assombro: um romance de histórias. Tradução: Érico Assis. São Paulo: Leya, 2016.

PALAHNIUK, Chuck. Condenada. Tradução: Tatiana Leão. 2. ed. São Paulo: Leya, 2014.

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