MULHER, NEGRA, MÃE, CAPOEIRISTA: TESSITURAS DE MEMÓRIAS E O LEGADO EDUCACIONAL E SOCIAL DA CAPOEIRISTA TÊRA DE TERESINA/PI.

Pesquisa em desenvolvimento pela bolsista Antônia Alaíde dos Santos Rodrigues.

Apresentação e Justificativa 

Este projeto tem como base o método histórico, entendendo a história a partir de Le Goff (2005, p. 42) que, ao tecer críticas às concepções tradicionais de história, afirma “Não há realidade histórica acabada, que entregaria por si própria ao historiador”, ou seja, o conhecimento histórico é construído a partir de explicações pessoais do passado, cabendo ao pesquisador que se debruça sobre a História, ao se deparar com os diversos materiais deixados pelo passado, dos testemunhos que carregam o sentido de cada momento e de cada experiência vivenciada pelos sujeitos históricos, optar pelos que deve trazer à tona, o que deve fazer emergir, a partir da seleção e do recorte que faz, estes transformados nos discursos que apresentarão o conhecimento histórico de determinada época e lugar.

Outro teórico que nos auxilia, reforçando esse entendimento e se utilizando de reflexões acerca dos documentos históricos, é Foucault (2007), ao afirmar que a história não mais toma para si a função de interpretar os documentos no intuito de desvelar se dizem a verdade, nem tampouco de lhes atribuir valores expressivos, mas, prioritariamente, de trabalhá-los e organizá-los, enfatizando recortes, ordenações e os repartindo em níveis, no propósito de distinguir o que é pertinente do que não é e descrevendo relações possíveis.

Por sua vez, Scott (1994) defende que o conhecimento histórico não se reduz a simples registro das mudanças nas organizações sociais ao longo do tempo, podendo ser pensado mais enquanto mecanismo que participa da produção do saber sobre estas organizações. Não se trata do conhecimento fiel da realidade vivida, tampouco detentor da capacidade de documentar as reais e únicas condições vivenciadas por homens e mulheres ao longo do tempo, mas da forma de conhecimento que fornece pistas para reflexões acerca da possibilidade de se construir novos rumos para a pesquisa e a produção de conhecimentos capazes de contribuir efetivamente, sendo esse o escopo deste estudo, na escrita das histórias sociais de mulheres teresinenses, especialmente, mulheres capoeiristas.

É importante situarmos que a capoeira, instituição e prática cultural (SOARES,1994) é tema de diversos campos do conhecimento, recebendo abordagens as mais diversas, tais como, histórica, antropológica, sociológica, linguística, educacional, dentre outras. São inúmeras as contribuições de especialistas que se apropriam dessa temática e imprimem suas marcas.

Diante dezenas de conceitos e definições, reflexo da época e do contexto sócio, político e cultural em que são produzidos, optamos por abordar a capoeira enquanto prática pedagógica social de resistência e rebeldia (SOARES, 2002), uma prática de rua, um código identitário de resistência do povo negro e do povo de forma geral, uma Pedagogia da rebeldia, entendida como contraposição e resistência frente as imposições das elites dominantes desde os anos finais do século XVIII no Brasil. (SILVA; SILVA; MOURA, 2018).

Suas primeiras manifestações emergem nos cenários sociais urbanos e rurais do Brasil na passagem do período colonial ao período imperial (REGO, 1968), se constituindo numa prática e tradição cultural brasileira, carregando características e aspectos de um jogo atlético desenvolvido e praticado pelo povo negro como uma luta, treinada, aperfeiçoada e difundida por meio de uma Pedagogia Social marcada por códigos, linguagens, vestimentas, atitudes, possuidora de tamanha complexidade que, podemos afirmar, se assenta numa cosmovisão própria que se contrapunha a visão do europeu dominante que se instalara no país e exercia, pela força, o controle pleno e absoluto sobre o povo. Sendo neste contexto que se afirma enquanto artefato cultural de resistência e contraposição, na luta de defesa do escravo contra o escravizador, do povo contra o feitor, elemento de embate efetivo e eficiente, uma luta material e objetiva que permite, mais à frente, o estabelecimento, em pleno século XIX, de um poder de contraposição que impera soberano por meio das instituições negregadas nos grandes centros urbanos brasileiros, materializado nas famigeradas Maltas de Capoeiras (SOARES, 2002), que incomodam e provocam o caos, demonstrando a força e poderia da capoeira, bem como seu protagonismo na história social do Brasil. É, pois, no universo dessa prática que desenvolvemos nossas pesquisam e por onde transitam nossos interesses acadêmico-científicos. 

Situado nosso campo de investigação, vimos concentrando nosso olhar para as questões em torno das mulheres teresinenses praticantes de capoeira (SILVA; SANTOS, 2019), identificando dentre várias questões a tendência dessa prática a ser associada exclusivamente ao universo masculino, inclusive, com a predominância de persistente machismo. No entanto, conforme pesquisas recentes informam (SILVA, 2016; SILVA, 2017), sua origem está atrelada a processos de resistência nos quais se envolveram não somente homens, mas mulheres, cujas trajetórias estão envoltas no mesmo universo contextual da disseminação forçada do povo africano no Brasil, o que nos leva a compreender que já daí a capoeira já carrega, imersa nos processos de formação e reformulação próprios da história, toda uma gama de enfrentamentos, tais como, de etnia, classe, além dos conflitos de gênero, sedimentando a base de resistência a contraposição que contribuem para que se constituísse em ferramenta principal da luta por sobrevivência dessa povo.

Este protagonismo feminino, ainda carece de um olhar e um cuidado aprofundados, tanto por causarem certo desconforto, quanto pelo total descaso, tal é a condição da mulher, sua participação e importância nesse universo.

Abordar sobre a história da participação e das experiências das Mulheres no universo da capoeira requer esforço maior, visto que, mesmo com significativo aumento de trabalhos realizados, ainda persiste insistente silêncio acerca da história das mulheres capoeiristas, seja pelo machismo que ainda persevera nessa prática (SILVA, 2017), seja pelo difícil processo de construção da identidade feminina (PORTELA, 2016), fugindo dos estereótipos e das projeções negativas dessa identidade na sociedade brasileira de forma geral e, mais especificamente, da sociedade teresinense.

Descortinar histórias de vidas de mulheres capoeiristas, também, não é uma tarefa tão fácil, pois já se identifica inúmeras delas atuando e protagonizando no universo da capoeira teresinense (BARBOSA, 2018), exigindo que se faça escolhas e opções acerca de quais devem assumir a condição de sujeito numa pesquisa científica, por quais motivos e justificativas, suas contribuições relevantes, quais aspectos de suas vidas podem trazer contribuições relevantes para a escrita dessa história, o que as qualifica a serem sujeitos de uma pesquisa científica, quais as representações, impactos e sentidos de sua história de vida neste universo e, principalmente, por se tratar de uma pesquisa de natureza educacional, quais suas contribuições pedagógicas e educacionais, oficiais e não oficiais, utilizando a capoeira como pedagogia.

Neste sentido, a partir das leituras anteriores e presentes que sustentam as discussões acadêmicas em nosso grupo de pesquisa na UESPI, e que versam sobre capoeira, mulher, gênero feminino, educação não formal, dentre outras, nosso interesse de investigação nos levou, inclusive como forma de fazer recortes e delimitações metodológicas necessárias, a opção de investigar a trajetória de mulheres capoeiristas negras, mães e professoras nessa arte, no esforço de sistematização metodológica para compreender, por meio de suas histórias de vida, os sentidos, significados e os enfrentamentos que a mulher enfrenta e vivencia no universo da capoeira.

Seguindo as trilhas percorridas por Fialho (2019), nossa proposta é reescrever um pequeno trecho da história da capoeira, tendo as histórias de vida de uma mulher, considerando as dimensões pessoais e profissionais, como cenário fundamental dessa tessitura, já atentos ao que Butler (2017, p. 7) coloca como “[…] artimanha sutil do poder […]” e, neste sentido, evitando que a história das mulheres seja contada por homens, como persiste em significativa parcela dos escritos da historiografia oficial.

Na imersão investigativa nos arquivos, nos aportes memorísticos escritos e gravados, nos espaços de socialização na web, nos cenários reais de práticas, nas falas, nos encontros, nas matérias jornalísticas, nas muitas conversas formais e informais, ou seja, na imersão cotidiana e perseverante no universo desta arte, identificamos, para os propósitos desse projeto, uma mulher, negra, mãe e capoeirista militante, Têra, cuja representação é significativamente positiva, tendo seu nome e suas intervenções, que se estendem da organização de encontros até a concepção e execução de projetos sociais, sempre citado e destacado enquanto referência feminina na capoeira, destacando-se a ideia, planejamento e coordenação de um encontro nacional de capoeira e gênero em Teresina, o Intercâmbio Cultural Feminino de Capoeira, com acentuada divulgação na imprensa, redes online e na comunidade teresinense de forma geral, proporcionado a ela um troféu “Carlos Said”, concedido pela Prefeitura Municipal de Teresina, via Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, para premiar e conceder visibilidade às boas práticas comunitárias e sociais e as pessoas responsáveis. Além disso, Têra iniciou sua jornada na capoeira em 1991 e recebeu, em 2017, o grau de Contramestra, sendo a primeira a receber este grau na capoeira teresinense.

Apresentando e sustentando teoricamente nossa problemática, elaboramos o problema da pesquisa, que se desenhou na seguinte pergunta: Como se configurou a tessitura do legado educacional e social da capoeirista Têra nos cenários da prática da capoeira em Teresina/PI?

Assim sendo, o projeto se propõe a uma investigação científica sobre a história de vida dessa mulher negra, mãe e capoeirista, suas experiências no universo dessa prática, seu legado educacional e social, suas contribuições, entre outros aspectos, no esforço de escrever uma parte da história social das mulheres capoeiristas, fazendo emergir o protagonismo feminino e trazendo à tona aspectos do pluralismo e da multiplicidade que caracterizam e marcam profundamente as identidades das mulheres. Acreditamos que a história de vida da capoeirista Têra contempla sobremaneira as intenções expostas.

Acreditamos, que as mulheres existem como sujeitos ativos nas relações sociais de forma universal, nos causando perplexidade e estranhamento as ausências a seu respeito, bem como, sua presença limítrofe e determinada exteriormente, por outros sujeitos que não elas próprias, nas narrativas historiográficas tradicionais. O projeto, assim entendemos, caminha na direção da releitura de um fragmento, uma pequena passagem, da extensa e complexa história da capoeira. 

Objetivos e Metas 

2.1. Objetivos

2.1.1. Geral

– Desvelar aspectos da trajetória de vida e do legado educacional, social e cultural da capoeirista Têra nos cenários da prática da capoeira em Teresina/PI a partir da investigação em fontes bibliográficas e documentais.

2.1.2. Específicos

– Descrever o trajeto histórico de mulheres nos cenários socioculturais de prática da capoeira em Teresina, considerando o espaço temporal que se estende da primeira metade da década de 1990 a 2019;

– Identificar traços e fragmentos históricos acerca da participação feminina nos grupos de capoeira de Teresina, por meio de registros documentais e bibliográficos, incluindo arquivos documentais e de hemeroteca, imagens paradas e em movimento;

– Efetivar interpretação referencial de documentos e material bibliográfico categorizado sobre a trajetória de vida de uma mulher praticante de capoeira em Teresina, no espaço temporal compreendido entre a década de 1990 aos anos de 2019;

– Descrever aspectos da história de vida, nas dimensões pessoal, profissional e socioculturais, da capoeirista Têra e suas contribuições pedagógicas e sociais no contexto das práticas da capoeira em Teresina;

– Contribuir na tessitura da escrita de parte da história social de mulheres capoeiristas em Teresina;

– Contribuir para o acervo histórico bibliográfico do NUPHEB e da UESPI, na produção de referenciais teóricos como documentos bibliográficos acerca da História Cultural de mulheres capoeiristas.

2.2. Metas

1 Produção de um corpus teórico sobre a participação feminina e seu legado educacional nos contextos das práticas da capoeira em Teresina por meio de 02 artigos a serem submetidos em periódicos acadêmicos no prazo de 12 meses;

2 Produção de 01 capítulo de livro, por meio de produção coletiva, no prazo de 06 meses;

3 Produção, submissão e apresentação de 02 comunicações, oral ou painel, em 02 eventos acadêmicos científicos, no prazo de 12 meses;

4 Realização de 01 oficina sobre a participação feminina e seu legado educacional nos contextos das práticas da capoeira em Teresina, para uma turma de 30 alunos de Pedagogia da UESPI, no prazo de 12 meses.

5 Produção de um Relatório Final de Pesquisa sobre a participação feminina e seu legado educacional nos contextos das práticas da capoeira em Teresina;

6 Produzir um documento imagético digital, em forma de documentário, em formato de curta metragem, contendo os achados da pesquisa.

Métodos e Procedimentos

A pesquisa se insere no contexto das pesquisas qualitativas, visto que seu objeto se trata de um fenômeno histórico e social, além de se assentar na ideia de que, na produção científica, os métodos epistemológicos com estatuto de validade são vários, não existindo uma verdade única no bojo da Ciência. Segundo Silverman (2009), um fenômeno social é aquele que se insere efetivamente nas categorias da sensibilidade histórica, cuja versão atual é cercada por problemas historicamente constituídos, por sensibilidade política, demonstrando como o tema investigado se originou como um problema social, e da sensibilidade contextual, em que o problema surge atrelado a determinado contexto e, a partir dele, assume vários significados.

Como exemplo, podemos destacar as investigações sobre capoeira enquanto fenômeno humano e social, os quais versam sobre os cenários, fatos e personagens típicos e marcantes na formação histórica e social, tais como os incômodos sociais causados pelos capoeiristas, evidenciados nas crônicas jornalísticas e policiais em diversos períodos históricos, o que demonstra como assumiu a natureza de problema social; bem como, os diversos significados que essa prática vai assumindo em sua dinâmica contextual, passando de prática marginalizada e perseguida criminalmente, a patrimônio cultural imaterial brasileiro e do mundo.

O projeto aqui proposto, partindo de pesquisas anteriores que se utilizaram de fontes de narrativas orais, terá o intuito de levantar e analisar dados de fontes textuais que forneçam informações rigorosas acerca da história social da capoeira teresinense e, dentro desse contexto, identificar, interpretar e descrever a participação das mulheres por meio de registros documentais e bibliográficos (SALVADOR, 1996).

Tendo como cenário o universo da capoeira em Teresina/PI, focando em sua dinâmica histórica e, de forma específica e temática, nos desdobramentos que proporcionaram a inserção e participação de uma mulher negra, mãe e Contramestra na capoeira, adotamos a concepção de pesquisa histórica, partindo das ideias de Fenellon (2010, p. 145), para o qual a história “[…] é um campo de possibilidades em que vai ser trabalhado com ‘os agoras’ a serem investigados” e que, para a essa pesquisa, acentua e legitima nossa opção por, negando a intenção de reconstruir o passado exatamente como aconteceu, fazer leituras e releituras desse passado centrado em perspectivas sociais e teóricas surgidas da diversidade de abordagens que permitem a lida com interesses recentes. 

O espaço temporal considerado será o início da década de noventa até o ano atual de 2019, em que as fontes utilizadas, aqui consideradas somente como “[…] evidências de momentos de experiências de vida […] trazidas a partir de questionamentos […] através das perguntas feitas […]” e que emergem a partir da “[…] interação dialética entre o pesquisador e a sua evidência que produz conhecimento histórico.” (FENELLON, 2010, p. 148). A escolha desse espaço temporal nasceu das evidências afloradas nas pesquisas anteriores sobre a personagem escolhida, as quais situam sua inserção na capoeira no ano de 1991, as quais apontam para o conhecimento de que as mulheres tiveram e seguem tendo participação efetivas neste cenário.

A personagem em tela é conhecida na capoeira como Têra e, conforme relatado no justificativa deste texto, têm sua história de vida profundamente marcada por sua militância na capoeira, suas intervenções educacionais e sociais, sua presença marcante e destacada à frente de eventos, encontros, movimentos e lutas das mulheres neste universo, além de significativa prática pedagógica com capoeira, em espaços formais e não formais, tendo sido protagonista em outras pesquisas, as quais nos disponibilizaram dados de fontes orais e documentais, muitos ainda necessitando de tratamento, justificando o escopo do projeto em tela, qual seja, a imersão aprofundada e rigorosa nestas fontes no sentido de contribuir para a tessitura do legado desta mulher capoeirista e o consequente registro de seu legado educacional, social e cultural.

O método utilizado para a execução será o da pesquisa qualitativa com texto e imagem, utilizando dados visuais de imagens paradas e em movimento (fotografias, negativos de fotografias, filmes, documentários, vídeos curtos e longos, dentre outros) e textos de transcritos de entrevistas orais, textos de reportagens em jornais e revistas, diários, registros livres, textos eletrônicos de redes online e livros de atas. Para Silverman (2009, p. 144) Texto se relaciona a “[…] dados que consistem em palavras e/ou imagens que ficaram registradas sem a intervenção de um pesquisador”. Por sua vez imagem se relaciona a pinturas, fotografias, filme, fitas de vídeo, desenho, diagramas e outras, se justificando porque no universo da capoeira a presença das imagens é muito forte, quase onipresente, além da compreensão de que a investigação “[…] que incorpore imagens na criação ou coleta de dados pode ser capaz de revelar algum conhecimento sociológico que não é acessível por nenhum outro meio.” (BANKS, 2009, p. 18).

Portanto, o método de investigação utilizado será o da Análise de Conteúdo, conjunto de técnicas de análise de comunicações, por meio da sistematização e descrição do conteúdo de mensagens que se pretende compreender significados para inferir conhecimentos sobre a produção e recepção destas mensagens, técnicas para estudar as comunicações entre as pessoas, com ênfase no conteúdo das mensagens. (BARDIN, 2016). Nesta pesquisa, limitamos o trabalho para a lida com material escrito e imagens paradas ou em movimento. 

É importante destacar que nossas análises, sem a pretensão de aprofundamentos maiores, transitarão pela Análise de Discurso, dada a natureza do estudo em apreender sentidos e significados nos textos sobre os quais nos debruçaremos, ancorados no entendimento de Orlandi (2001, p.19) que afirma “[…] a. não há sentido sem interpretação; b. a interpretação está presente em dois níveis: de quem fala e de quem analisa, e c. a finalidade do analista de discurso […] é compreender como um texto produz sentidos.”. Isso significa que não pretendemos interpretar os textos analisados, mas os resultados das análises de que esses textos constituem corpus.

Materialmente, pretendemos trabalhar em três etapas, iniciando com a pré-análise em que efetivaremos a organização de todo o material que será investigado, por meio do levantamento aprofundado de todo material selecionado, o qual será separado e categorizado segundo a natureza das informações fornecidas, a época do registro e como aborda a temática pesquisada. (BARDIN, 2016).

Em seguida passaremos à descrição analítica, com aprofundado estudo do material organizado e categorizado na pré-análise e que comporá o corpus fundamental que fornecerá os dados que servirão de base para as análises finais. Em virtude disso essa fase será orientada pelas informações e produções de pesquisas anteriores, destacadas na justificativa, e nosso referencial teórico, seguindo a compreensão de que toda pesquisa deve partir de uma base de informações sólida e legitimada. Nessa fase aprofundaremos a codificação do que será analisado, sua classificação e a categorização final para análise e produção de quadros de referências (TRIVIÑOS, 2009) relativos, por sua vez, aos sentidos e significações, compreensões, pontos de vistas e juízos expressos sobre a trajetória da capoeirista Têra na capoeira em Teresina/PI, os registros memorísticos e textuais sobre suas relações, percepções, dificuldades, ganhos, expectativas em relação a essa jornada.

Finalmente, na terceira e última fase, de interpretação referencial, faremos o aprofundamento das análises finais, desvendando o conteúdo velado, não aparente, nos documentos e materiais analisados e que orientarão as considerações finais do estudo. Pretendemos, por meio desse percurso metodológico, desvendar pressupostos de natureza cultural, especialmente os modos de relações e as dinâmicas envoltas na produção do fenômeno histórico objeto da pesquisa, a saber, esse movimento de aproximação, inserção e vivências das mulheres na capoeira, a partir do contexto mais geral da História Social dessa cultura em Teresina/PI, seus atores, processos, dinâmicas, aspectos, valores, ideologias, dentre outros, conforme os sentidos produzidos nos textos fontes.

Assim sendo, os objetivos da pesquisa serão buscados por meio de incursões em arquivos documentais e produções de pesquisadores que se debruçam sobre a capoeira como objeto de pesquisa; assistência a materiais audiovisuais em vídeos por meio da transcrição concomitante e registros dos aspectos relevantes ao estudo, em sessões programadas; análise de fotografias; leitura e análise de documentos oficiais e não oficiais, registros em diários e agendas, cartazes de divulgação, dentre outros.

É Chizzotti (2006) quem nos afirma que um método consistente e rigoroso deve se assentar em normas sistemáticas de extrair significados e significantes dos achados da pesquisa, a partir da constância com que assuntos e ideias privilegiadas pelo estudo surgem das análises e da interpretação da importância atribuído a eles, o que favorece o estabelecimento da frequência estatística desses significados, no contexto do universo pesquisado e desvelando sentidos, significados e as características especiais ocultos nas mensagens dos textos e imagens analisados.

No trato dos dados, optamos pelo cruzamento dos dados produzidos pela transcrição textual dos testemunhos obtidos em pesquisa anterior com outras fontes pertinentes para contar a história social de uma mulher capoeirista teresinense, ressaltando suas contribuições educacionais, sociais e culturais, dentre as quais, fotografias, diários, cartas, informativos, jornais, registros imagéticos em movimento e outros que possam possibilitar e contribuir de forma relevante para o trabalho com as memórias das pessoas, desvelando acontecimentos importantes da história de vida dessas personagens, permitindo novos olhares sobre fatos narrados, ou não, pela historiografia oficial (FERREIRA; AMADO, 2006).

Os principais fatores que possivelmente podem pôr em risco a execução da pesquisa, assim como o pleno atingimento de seus objetivos podem ser expressos a partir de dois aspectos. O primeiro aspecto diz respeito ao não acesso a documentos e arquivos visuais imagéticos referentes ao objeto da pesquisa, ou seja, que não se encontrem os documentos e as imagens, paradas e em movimento (vídeos), que representem o processo sobre o qual pretendemos nos deter e efetivar as análises adequadas e que produzirão os dados, especialmente quando pretendemos efetivar análise por cruzamento de fontes, conforme explicitado no corpo do texto.

O segundo aspecto se reporta aos problemas com uso de imagens das pessoas identificadas e que, por ventura, se sentissem ofendidas ou expostas, provocando possíveis processos no sentido de se retirar tais imagens.

A respeito dos aspectos citados, providências serão tomadas como forma de evitar suas manifestações. No primeiro caso, que não se encontre os documentos e imagens, medidas quanto ao contato prévio e permissão ao acesso de arquivos onde se encontram significativa parcela das fontes que serão utilizadas já estão em processo adiantado, garantindo a supressão deste aspecto.

Sobre o segundo aspecto, medidas serão tomadas no sentido de embaçar os rostos das pessoas para evitar identificação. Durante a execução da pesquisa, aquelas pessoas que forem indispensáveis ao estudo deverão ser contadas para autorizar o uso de suas imagens, especialmente em fotos. Em relação aos arquivos de jornais e matérias jornalísticas isso não se fará necessário, dado o caráter público de tais materiais já circulados.

Referências Bibliográficas 

BANKS, Marcus. Dados Visuais para Pesquisa Qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009.


BARBOSA, Jessica Yule Lisboa. A Capoeira como Prática Pedagógica Escolar e Não Escolar: narrativas de mulheres capoeiristas teresinenses. 2018, 62 f. Monografia (Licenciatura em Pedagogia) – Universidade Estadual do Piauí/Teresina, 2018.

BARDIN, Laurence. Análise do Discurso. São Paulo: Edições 70, 2016.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. 13. ed. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. Petrópolis/RJ: Vozes, 2006.

FENELLON, Dea. Pesquisa em História: perspectivas e abordagens. In: FAZENDA, Ivani (org.). Metodologia da Pesquisa Educacional. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 131-152.

FEREIRA, M. M; AMADO, J.  Usos e abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

FIALHO, Paula Juliana Foltran. Mulheres Incorrigíveis: capoeiragem, desordem e valentia nas ladeiras da Bahia (1900-1920). 2019, 298 f. Tese de Doutorado (História) – Universidade de Brasília, 2019.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber.7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007

GOFF, Jacques Le. A História Nova. 5. ed. São Paulo Martins Fontes, 2005.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso e texto: formação e circulação de sentidos. Campinas/SP: Pontes, 2001.

SALVADOR, Ângelo Domingos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Bibliográfica. 11. ed. Porto Alegre: Sulina, 1986.

SCOTT, Joan W. Preface a gender and politics of history. Cadernos Pagu, n. 3, Campinas/SP 1994.

SILVA, Rafael Ferreira. A Mulher na Capoeira e participação no movimento de resistência ao sistema racista e patriarcal. Salvador/BA, 2015/07. Disponível em: <http://www.uneb.br.htm&gt;. Acesso em: 04 abr. 2016.

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SILVA, Robson Carlos; SILVA, Rafael Bruno Ferreira; MOURA, Cândida Angélica Pereira. Capoeira e Pedagogia Rebelde: reflexões acerca da roda de rua como resistência. Capoeira: Revista de Humanidades e Letras, v.4, n. 2, 2018, p. 85-97.

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SILVERMAN, David. Interpretação de dados Qualitativos: métodos para análise de entrevistas, textos e interações. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994.

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WALDELOIR, Rego. Capoeira Angola: ensaio socioetnográfico. Salvador/BA: Itapuã, 1968.

Um comentário sobre “MULHER, NEGRA, MÃE, CAPOEIRISTA: TESSITURAS DE MEMÓRIAS E O LEGADO EDUCACIONAL E SOCIAL DA CAPOEIRISTA TÊRA DE TERESINA/PI.

  1. Robson Carlos da Silva

    Em tempos onde o feminismo negro assume protagonismo destacado, pesquisar a trajetória de mulheres negras na Capoeira é uma excelente forma de desvelar aspectos da dinâmica desse legado cultural afro-brasileiro fruto da diáspora africana ao Brasil, hoje Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Contar a trajetória de uma mulher negra nessa cultura, por meio de aspectos contextuais da própria cultura em seus movimentos e dinâmicas é, sem dúvida, contribuição significativa aos estudos sobre africanidade, negritude, feminismo negro e Capoeira, hoje uma realidade, inclusive promovendo diálogos acadêmicos entre UESPI e UFPI. Parabéns!

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