O PROFESSOR INTELECTUAL TRANSFORMADOR NO CONTEXTO DA LÓGICA DO VAZIO DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

Prof. Dr. Robson Carlos da Silva/UESPI.

Atualmente é recorrente, nos debates acadêmicos acerca das sociedades modernas e do indivíduo contemporâneo, reflexões críticas sobre a crescente desagregação dos costumes da época do consumo de massa e a emergência de um modo de socialização e de individualização jamais concebido, em contraposição com o instituído a partir do advento da modernidade.

“Nas sociedades Pós-modernas prevalece um processo de “personalização”, tendo como valor fundamental a realização pessoal, de respeito pela singularidade subjetiva”

Uma leitura atual e que nos revela importantes aspectos dessa conformação social são os ensaios do filósofo francês Gilles Lipovetsky (2007) refletindo a partir e sobre as sociedades Pós-modernas, as quais o autor caracteriza enquanto sociedades onde reina a indiferença em massa e sentimentos de saciedade e de estagnação, onde a autonomia privada é obviamente predominante, resultando numa espécie de pulverização do ideal da modernidade em relação à capacidade de subordinação às regras racionais construídas coletivamente.

Nas sociedades Pós-modernas prevalece um processo de “personalização”, tendo como valor fundamental a realização pessoal, de respeito pela singularidade subjetiva, ou seja, o direito de o indivíduo ser absolutamente ele próprio, um indivíduo livre em valor e individualista, que teve na transformação dos estilos de vida e na revolução do consumo os fundamentos centrais. Viver livre e sem nenhum tipo coação, escolhendo sem restrições o seu modo de existência se constitui no desejo mais legítimo dos sujeitos contemporâneos, visto que, enquanto aspirações centrais percebe-se a ausência de ideologias políticas com força suficiente para despertar multidões e de projeto histórico mobilizador, persistindo o governo absoluto do “vazio”.

Fica evidente que se trata de ideais e valores onde o consumo, longe de se esgotar, atinge sua apoteose, em especial por meio da busca desenfreada pela aquisição dos objetos de fascínio, produtos da força dos apelos midiáticos, e de cada vez mais informação, caracterizando uma cultura Pós-moderna, perfeitamente identificável pela busca da qualidade de vida, pelo culto desenfreado e ansioso por participação e por expressão, numa extremada paixão pela personalidade.

Numa afirmação emblemática, Lipovetsky, destaca que nas sociedades Pós-modernas o individualismo é total, face ao “surto individualista induzido pelo processo de personalização”, ao que ressalta se tratar da manifestação e efetivação de narcisismo, em que o indivíduo se sente atraído pelo relacional, vinculado a grupos setoriais, formados por “seres idênticos”, voltados para a diferenciação.

“[…] o professor deve conduzir seu trabalho através da combinação entre a prática acadêmica consistente e a reflexão constante sobre essa prática a serviço da formação de estudantes que venham a se tornar sujeitos sociais emancipados, cidadãos reflexivos e ativos”

Há, assim, a predominância de espetáculos e exposições sem sentido, assim como de declarações totalmente insignificantes, sem evidente pretensão de causar qualquer efeito, pois o que está em jogo é a possibilidade e o prazer narcísico do indivíduo que se exprime mesmo que para nada, somente para si, contanto que seja veiculado e amplificado por uma mídia qualquer, como facilmente podemos perceber no destaque e na centralidade que as “celebridades” assumem, suas falas sendo reproduzidas e seus ideais, estilos e valores, em sua quase totalidade efêmeros e vazios, tornados significantes, desvelando como a exposição, o comunicar e a expressão são promovidos sem outro objetivo que não o de expressar em todo sua profundidade a lógica do vazio.

Neste sentido, buscando trazer reflexões gestadas no campo da educação e partindo do questionamento acerca de quais ações reais e efetivas devem ser realizadas pelos professores no sentido de contribuir para que seus alunos sejam capazes de superar os efeitos da lógica do vazio, pensamos nas contribuições do professor intelectual transformador, definição cunhada pelo educador estadunidense Henry Giroux (1997), por acreditarmos que o professor deve conduzir seu trabalho através da combinação entre a prática acadêmica consistente e a reflexão constante sobre essa prática a serviço da formação de estudantes que venham a se tornar sujeitos sociais emancipados, cidadãos reflexivos e ativos.

Três pontos são essenciais na condução das reflexões sobre a concepção desse modelo de professor. Em primeiro lugar, para que o professor seja considerado um intelectual transformador faz-se necessário compromisso e responsabilidade ativa na formação de propósitos e condições reais de desenvolvimento da prática educativa, com destaque para a questão central que é o ser ativo, ou seja, que o professor esteja ativamente participando, atuando e intervindo diretamente nos espaços onde desenvolve sua atividade profissional, efetivando, assim, uma constante integração entre a reflexão e o agir ativamente, articulando sua formação teórica e os saberes experienciais próprios de sua vivência profissional (TARDIF, 2002).

Em segundo lugar, a concepção de intelectual transformador funciona como uma crítica às ideologias tecnocráticas e instrumentais que concebem o professor apenas como um técnico aplicador de teorias elaboradas pelos supostos especialistas, notadamente aqueles que, através da pesquisa acadêmica, produzem a teorização sobre a realidade educacional, às vezes sem nunca ter postos os pés no espaço de alguma escola.

E finalmente, em terceiro lugar, deve-se partir sempre da concepção de que as escolas são espaços em constante construção, espaços onde se entrelaçam, ininterruptamente, conhecimentos, valores sociais diversos, diversificadas práticas de linguagens e formas culturais particulares, aspectos parciais de uma cultura social mais ampla, em constante conflito e disputa pelo direito de “representar” e de “representar”, de ter seus ideais representados e de impor suas significações frente ao “outro”. (COSTA, 1999).

Neste sentido, acreditamos que o professor intelectual transformador traz o perfil essencial para contribuir na formação de alunos como cidadãos críticos e ativos, desenvolvendo a vontade de lutar e superar as relações sociais injustas para que se possa pensar no estabelecimento de condições de vida mais democráticas, justas, éticas e humanas. (GIROUX, 1997).

Assim, o professor intelectual transformador deve conduzir sua prática por pedagogias que incorporem interesses políticos emancipatórios, centrando suas reflexões na problematização dos conhecimentos envolvidos, sustentando suas argumentações em favor de um mundo mais justo, e através do emprego do discurso e do diálogo aberto e afirmativo e que conduza os sujeitos a serem capazes de promover mudanças, seja na escola ou nos demais espaços sociais, tais como os ideais e valores da lógica do vazio que, ao serem desvelados e desnudados em suas ideologias aprisionadoras, poderão ser superados por valores que reforcem a ideia de coletividade, convivência, entendimento, diálogo e, acima de tudo, profundidade na escolha, na opção e condução de suas aspirações e na construção de suas personalidades.

Referências

COSTA, Marisa Vorraber. O Currículo nos limiares do contemporâneo. 2 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

GIROUX, Henry A. Os Professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio D’Água, 2007.

TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

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