SOBRE A TRANSGRESSÃO NA ESCRITA ACADÊMICA

Conhecimento e tradição acadêmica e científica das Ciências Humanas

Cada qual possui sua própria profundidade, sua própria experiência e alguma convicção quanto a estar em contato com sua sat-chit-ananda, em que, seguindo as ideias de Campbell e Moyers (1990), Sat, significa ser, chit, significa consciência e ananda, remete a bem-aventurança, enlevo, ou seja, seu próprio ser através da consciência e bem-aventurança. Podemos atingir o máximo possível dessa experiência enquanto vivos, inclusive, em nossa prática enquanto profissionais que desenvolvem suas práticas no ensino e na pesquisa acadêmica e científica.

Nas Ciências Humanas a tradição de aquisição de conhecimentos se consolida, dentre outras formas, por meio de livros, de textos publicados em livros, sendo que o amparo e sustentação aos artigos, sem desmerecer sua importância, ocorre de forma secundária, pois reflete parcialidades de estudo, quase nunca sua totalidade.

Raramente, alguém pesquisa e produz conhecimento em Ciências Humanas, com o intuito primevo de publicar artigos em periódicos, em revistas científicas, mas sim para publicar seus achados e produções em livros e capítulos de livros e fazer suas ideias circularem nos ambientes de sua prática, apropriadas e discutidas nos cenários de sua atuação.

Em nosso caso, enquanto professores de uma universidade pública, passamos, em média, dois anos em um mestrado e quatro anos em um doutorado e, ao finalizarmos nossas pesquisas, devemos, enquanto dever ético, dada a condição de afastados de nossos encargos docentes para formação às custas de dinheiro público, socializar, fazer circular a produção do conhecimento fruto dessas pesquisas, o que nos move na publicação de livros. Essa é a tradição acadêmica e científica das Ciências Humanas.

“[…] fazer suas ideias circularem nos ambientes de sua prática, apropriadas e discutidas nos cenários de sua atuação.”

Durante o processo destacado acima, é comum a produção de capítulos em obras coletivas, geralmente organizadas nos próprios programas de pós-graduação em que estamos inseridos, inclusive, não raro, nos livros de anais de eventos científicos que participamos e apresentamos os resultados parciais das pesquisas. Esse costume mantém, acredito, a proposta, ferrenhamente defendida, de se fazer pesquisas em coletividade, em grupos, em equipes e redes, coletividade essa expressa na produção de uma obra coletiva, pelo envolvimento e diálogo proporcionado com os estudos e investigações socializadas pelos demais companheiros do nosso e de outros programas.

Ao retornarmos do programa de pós-graduação, mesmo antes de publicarmos nossas teses e dissertações, podemos dispor os capítulos destes trabalhos a nossos alunos, mantendo, assim, o acesso aos conhecimentos que produzimos e a tradição acadêmica e científica das Ciências Humanas.

No processo de progressão funcional, na universidade da qual somos professores, a publicação de capítulos de livros são valorizadas e reconhecidas, e não somente a publicação em revistas de elevado peso acadêmico, ao contrário do que comumente se apregoa no universo sagrado dos seguidores incondicionais dos ditames de agências oficiais como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), os quais, inconscientes ou intencionalmente, se esquecem que para determinada revista seja considerada/avaliada como periódico de elevado peso acadêmico e científico, como se diz, de excelência, exige, antes de mais nada e acima de tudo, a indexação do periódico em bases internacionais de dados, o que se concretiza, notadamente, por meio do pagamento de taxas elevadas, caras, capitalizando o conhecimento público produzido. A qualidade e a excelência estão profundamente comprometidas com o capital investidos. Se esvaem enquanto puro mérito, além de se assentarem numa lógica contrária à que sustenta os objetivos e a natureza das Universidades Públicas. Lógica essa que fundamenta, garante e sustenta nosso direito de afastamento de nossas atribuições e encargos, enquanto servidores públicos, para formação superior, conforme destacamos, às custas de recursos públicos.

Ao que parece se institucionaliza uma lógica reversa, talvez perversa, onde somos incentivados e sustentados de forma pública, em instituições públicas e programas de excelência pública para, em seguida, publicarmos nossas produções, os novos conhecimentos e saberes que ajudamos a construir, em espaços privados, publicações periódicas que, mesmo fomentadas e editadas (impressas ou postadas em plataformas online) por agências públicas, são mantidas com recursos altos, administradas e geridas por nobres detentores do saber que, em suas exigências de excelências cujos parâmetros somente suas mentes são capazes de assimilar, tornam impossível nosso acesso enquanto autores, principalmente, quando não fazemos parte da rede, do sistema fechado, construído ao redor desses periódicos.

A apresentação de comunicações orais em encontros, assim como a publicação de textos nos anais desses encontros, inclusive com a participação de alunos/as que orientamos como bolsistas em nossas pesquisas, que podem ser de PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) com bolsas fornecidas pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) ou de Projetos de Pesquisas Institucionais, também têm significativo valor para nossa progressão funcional.

Os Projetos de Pesquisas Institucionais, mesmo sem o fornecimento de bolsas para alunos e professores, são excelentes laboratórios e exitosos sistemas de trabalho em equipe, notadamente pela possibilidade de inclusão, nas equipes, de alunos/as da graduação, além de pesquisadores externos, como convidados, o que enriquece o trabalho, concede maior rigor, dada a possibilidade de olhares outros aos estudos e amplia as redes de relações e socialização das pesquisas, o que, em meu entendimento, é o propósito de qualquer pesquisador/a.

Negando estereótipos, buscando protagonismos

Partindo do que foi dito no parágrafo anterior, pergunto, o porquê da obrigatoriedade e do dispêndio de tantas energias e recursos financeiros em torno da publicação em uma revista de excelência, se a excelência somete terá peso e valor para aqueles/as que já os tem? Visto que pouco ou quase nunca os textos publicados nessas revistas circulam livremente entre as pessoas comuns, ficando, quase sempre ao deleite de nobres pesquisadores, geralmente membros dos conselhos científicos dessas revistas, e suas inacessíveis ideias pesquisadas. Cria-se um circulo vicioso e fechado entre as revistas: publica meu texto na tua, que eu púbico o teu na minha! Quem não faz parte do círculo, não caberia aqui discutir os critérios, não publica. Predomina a máxima, “Publico logo existo!“.

São revistas renomadas, porém, inacessíveis, para além de seu círculo, quase feudo, de privilegiados que têm permissão para publicarem seus textos. Alguns desses periódicos, diga-se de passagem, são detentores de excelência que se esvai, às vezes, na primeira leitura sobre algum artigo entre as dezenas que compõem cada volume. Não raro, após se aventurar em algumas dessas leituras, somente ampliamos nossa incredulidade sobre a suposta excelência apregoada.

A proposta de publicação de textos inovadores, criativos, ousados, desafiadores, não se cumpre e acabamos nos deparando com resultados já encontrados em outros escritos, se repetindo com alguns pequenos arranjos, mascarados ou maquiados às vistas dos menos atentos.

“Ecologias, especialmente de saberes, não podem ser cerceadas, tampouco dispostas para poucos, devem, sim, ser socializadas e acessadas livremente.”

Poucas vezes se defronta com textos que provocam reflexões inquietantes e desafiadoras, a partir de ideias inovadoras, o que sempre se espera das pesquisas e teorias das Ciências Humanas, em pesquisas que se sustentam em epistemologias que nascem das experiências das margens e das fronteiras do pensamento eurocêntrico dominante (SANTOS, 2019).

Portanto, numa síntese profana, desistimos de submeter nossos textos a essas revistas; principalmente, porque jamais serão aceitos, visto que escritos de pessoas não cadastradas a Programas de Pós-Graduação (PPG) não possuem esse direito, sendo, assim, uma exigência primeva para publicar nessas revistas, o cadastro em alguns desses programas, raciocínio que nos conduz a entender que mestres, doutores e pós-doutores somente são capazes de produzir conhecimentos quando ou se estiverem cadastrados em algum PPG de uma universidade pública ou privada.

Caso não tenha oportunidade, não concorde ou não queria participar de um PPG, por não ser o que buscamos, por não ser, seguindo Campbell e Myers (1990, p. 127) “O caminho que eu busque para encontrar, seguir e atingir minha bem-aventurança”, então jamais seremos considerados aptos a pesquisar, produzir e publicar.

Negamos esse estereótipo, negamos vestir essa roupagem ou sermos inseridos numa embalagem vazia de propósito e estéril de valor, esvaziada de sentido e significado e atrelada a uma lógica, uma cosmovisão, idiotizada. Defendemos nosso protagonismo na produção de conhecimentos que tenham impacto em múltiplas práticas sociais, que fomentem e sustentem reflexões sobre essa produção e tragam à baila o diálogo igual entre as diferentes formas de conhecimentos, diálogo este que, seguindo as reflexões de Santos e Meneses (2010), podem ser denominados de ecologias de saberes. Ecologias, especialmente de saberes, não podem ser cerceadas, tampouco dispostas para poucos, devem, sim, ser socializadas e acessadas livremente.

Saber e conhecer: possibilidade, ousadia e transgressão

Atualmente publicamos para nosso público, em site próprio, com a parceria e cooperação de muitos companheiros/as pesquisadores/as e alunos/as orientandos/as; nos inscrevemos em encontros acadêmicos pertinentes à nossa área de conhecimento, que ofereçam oportunidade de comunicarmos e publicarmos, em seus anais, nossos escritos, tanto parciais, quanto finais.

Certamente seremos vistos, ouvidos e lidos, seremos questionados e sugestionados, passaremos pelo rigor de olhares outros, cada qual com novas leituras, releituras e propostas inovadoras e engrandecedoras. Nossas ideias circulam, fazem circular outras, serão ideias vivas, base para novas ideias, novos estudos e novas descobertas. Este, acreditamos, o sentido da produção de conhecimentos.

“[…] o conhecimento […] próximo […] das comunidades, […] dos cenários em que os sujeitos, os objetos e fenômenos e as modalidades […] circulam e se atravessam.”

São ideias que se originam de conhecimentos nascidos nos embates cotidianos, de pessoas que resistem ativa e significativamente a opressões, especialmente, cognitivas; de conhecimentos, muitas vezes, desacreditados e, quase sempre, ignorados num primeiro movimento, para, em seguida, ser apagado, esquecido, tornado inexistente ou inexpressivo (SANTOS, 2019), porém, negamos que assim seja.

Organizamos grupos e publicamos livros coletivos de autores, socializando nossos escritos, sejam eletrônicos ou impressos, numa rede que envolve professores/as, pesquisadores/as e alunos/as, num processo coletivo e cooperativo, fazendo vir à tona textos acerca das realidades próximas, sobre as quais voltamos nossos olhares, nossas inquietações e nosso esforço produtivo. Se configura, inclusive, certos de que seria imprudência ou ingenuidade acreditar que teríamos outras formas, relações de “poder-saber” (FOUCAULT, 2002, p. 27), instituídas a partir do movimento em que se considera o conhecimento algo muito além do sujeito que conhece, que produz esse conhecimento e que se coloca enquanto detentor máximo do saber produzido, trazendo para o centro, ainda seguindo Foucault (20202), também enquanto fundamentais nesse processo, os objetos e fenômenos que buscamos conhecer, além das variadas modalidades de conhecimentos e suas infinitas implicações para as transformações históricas.

Para ficar mais claro a reflexão que pretendemos provocar, defendemos que não são somente as pessoas, os sujeitos, determinados seres que se julgam iluminados e detentores de conhecimentos elevados que seriam capazes de produzir um certo tipo de saber e que os elevaria a determinada condição de poder, mas muito antes e além disso, ao que Foucault (2002) chama de poder-saber, o que envolve exatamente o conjunto de aspectos proporcionados a partir das lutas e processos presentes constantemente e que, envoltos e atravessados entre si, determinam as formas, modalidades, campos e possibilidades do conhecimento.

Acreditamos que o conhecimento, enquanto poder-saber, segue este processo, sendo produzido, socializado e melhor acessado e utilizado, quando se configura próximo e acessível ao social, das comunidades, dos campos, dos locais, dos cenários em que os sujeitos, os objetos e fenômenos e as modalidades de conhecimentos circulam e se atravessam.

Permitir que o conhecimento humano e social permaneça escondido e secretamente protegido, engavetado e esquecido nas páginas inacessíveis de revistas nobremente indexadas, aos “profanos” seres comuns, é uma atitude inaceitável, que não comunga com a natureza dos pesquisadores e teóricos das Ciências Humanas, pois veta o diálogo e impossibilita a função, essa sim nobre, do conhecimento, que é fazer circular livremente as ideias, principalmente, as arredias e transgressoras, pois acreditamos que somente transgredindo o instituído é que se avança em todos os sentidos e possibilidades. Assim sendo, concluímos esses escritos reflexivos, cientes de que fazer saber é desafiar a conhecer e conhecer é saber que ainda temos muito a descobrir. 

Robson Carlos

Referências

CAMPBEL, Joseph; MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

FOUCAULT, Michael. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. 26. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O Fim do Império Cognitivo: a afirmação das epistemologias do sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010. 

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