REFLEXÕES SOBRE A URGÊNCIA DE SE NEGAR E DESCARTAR, NÃO VIDAS, MAS AS IDEIAS FANÁTICO-IDEOLÓGICAS E TENEBROSAS

“Precisamos criar uma sociedade nova, com a ajuda de todos os nossos irmãos […], enriquecida por toda potência produtiva moderna, aquecida pela fraternidade antiga.” (CÉSAIRE, 2017, p. 43)

Em um belo texto contra o processo colonizador da Europa sobre as nações e os povos africanos, centrado, sobretudo, nos discursos que tentam desumanizar os povos e civilizações não-brancas europeias, ao representá-las como atrasadas, ignorantes e selvagens, Césaire (2017) afirma que a ideia do negro enquanto povo bárbaro é uma invenção europeia, ressaltando que o pequeno burguês não quer escutar nada além de suas invenções enquanto verdade e, com um bater de orelhas espanta qualquer ideia contrária, fazendo funcionar a máquina do esquecimento.

A passagem que abre esse escrito ilustra, sobremaneira, os momentos que estamos vivendo hoje, pleno 2020, em que, acossados por uma pandemia, nos encontramos em estado de isolamento social, em um quadro que, além de posicionamentos egoístas, interesseiros ou fanático-ideológicos, se agrava e ceifa vidas numa velocidade espantosa, com novos recordes de mortes diárias sendo superados todos os dias (EL PAÍS, 2020).

Foucault (1987, p. 254), afirma que vivemos enquanto humanidade, atravessados por complexas relações de poder, em que os corpos e, consequentemente, as vontades e as forças estão subordinadas “[…] por múltiplos dispositivos de poder, objetos para discursos que são eles mesmos elementos dessa estratégia”. Não podemos negar a atualidade do pensamento de Foucault (1987), ao nos defrontarmos diariamente com discursos elaborados (talvez, muito pouco elaborado), proferidos e cuspidos, televisados, escritos ou viralizados¹, que mentem e desmentem, dizem e desdizem, coadunam e se contrapõem, dentre outros malabarismos discursivos que para nada servem, além de confundir, desinformar e fortalecer os mecanismos e estratégias de poder, visto que, uma das estratégias mais exitosas de dominação, seguindo Césaire (2017), é tornar e manter as pessoas, as massas, ignorantes, desinformadas e desorientadas.

O que temos diante de nós, acontecendo de forma real e efetiva, é o desenrolar de estratégias movidas e assentadas em extremismos, a partir de uma lógica caduca que concebe a realidade enquanto dicotômica, em que tudo se sustenta e se justifica a partir de somente dois polos, que não se completam, aliás, se excluem, ao contrário do que defende Campbell (1990) ao aprofundar a ideia de circularidade do mundo, em que nos completamos e atingimos nossa bem-aventurança, notadamente, por meio de sacrifícios, deixando evidente que ao nos sacrificarmos cedemos parte de nosso egoísmo em detrimento do acolhimento do que os outros têm a nos oferecer e, ao afirmar que “Morte é vida, vida é morte e os opostos entram em acordo” (CAMPBEL, 1990, p. 114), reforça nossa compreensão de que todo extremismo é ignorante e insensato.

“[…] Embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital (Han, 2018, p. 10), numa cegueira e numa estupidez dilatadas que, simultaneamente, instalam e concedem base à crise atual, […] favorecem a instauração do caos.”

A sociedade paira desorientada diante do movimento estulto que afirma que não existe uma epidemia, que se trata de manobra conspiratória para destruir o desenvolvimento de determinadas nações, que se mantivermos o isolamento social e os cuidados orientados pelos profissionais da saúde estaremos retrocedendo aos avanços econômicos alcançados (se esquecem de dizer o que fizeram com a bendita “crise” tão apregoada), ora falando ancorados na ciência (tal cientista “provou” que esse vírus é fabricado em laboratório), ora negando a ciência (trata-se de uma gripezinha, é invenção de chinês comunista), dentre outras palermices, sendo a que mais nos choca aquela que coloca a vida enquanto um fenômeno ou um objeto da economia, demonstrando que a ética de Ozymandias², que defende que para aprimorarmos o mundo, desejo de toda a humanidade, qualquer plano seria inútil, que não o seu de exterminar milhões de vidas, mesmo envolvendo inocentes, para salvar bilhões e tornando nosso planeta “Um mudo forte e adorável” (MOORE; GIBBONS, 2009, p. 386). É a ética do descarte de vidas de vidas inúteis, mesmo que envolva o sacrifício de vidas inocentes.

Na verdade, quando se defende o descarte de vidas, assentados na lógica econômica de que, para não pararmos a roda da fortuna, é perfeitamente viável o sacrifício de vidas, atualmente sacrifício que deve ser feito pelos idosos, nos lembramos de Césaire (2017) reportando ao preço que ainda hoje é pago pelo povo negro a partir do momento em que foi posto enquanto bárbaro e ignorante, pelo branco europeu colonizador, tendo, portanto, sua natureza desumanizada e tornada descartável, tal como concretamente se efetivou no sistema desumano e brutal do escravismo nas américas, também, como convém à lógica extremista em vigor, justificado pela necessidade de crescimento econômico.

Nos confrontamos hoje com uma sociedade, apropriadamente descrita por Debord (2017), espetacular, cenário do império do progresso da técnica espetacular e do extraordinário acontecimento mediático que torna possível a liberdade ditatorial do mercado, por sua vez, favorecendo a separação do trabalhador com aquilo que produz e fertilizando o sistema econômico fundado no isolamento e na alienação do espectador em proveito do objeto contemplado, afinal, como afirma Han (2018, p. 10), “Embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital” numa cegueira e numa estupidez dilatadas que, simultaneamente, instalam e concedem base à crise atual, alguns diriam, favorecem a instauração do caos.

“[…] o sentido da vida não se esgota na satisfação imediata das meras carências, notadamente, quando estas carências são frutos da valorização do excedente e superficial.”

Sentados em frente a qualquer meio tecnológico que nos permita acessar o universo online nos deparamos, enquanto espectadores, com a solução simples e imediata de vencer uma pandemia com o descarte de vidas, das vidas de nossos velhos, pois já viveram, podendo, então, morrendo, permitir que o mundo siga. Claro que não conseguimos enxergar o alcance e a eficiência de tal raciocínio, outrossim, a própria imprensa (EL PAÍS, 2020) chamar a atenção para o fato de que, no Brasil, o vírus Covid-19 está, contrariamente a outros países, contaminando mais jovens do que idosos.

Novamente Campbell (1990, p. 03), nos ajuda a pensar, ao afirmar que “[…] o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos”. Ao contrário da ética de Ozymandias, o sacrifício no sentido da bem-aventurança, significa ceder em favor do/a outro/a, se permitir privações e dificuldades para vislumbrar a possibilidade de um porvir melhor. Enfrentamento coletivo remete ao corpo social empenhado conjuntamente para, sacrificando momentaneamente hábitos coletivos prazerosos, superar crises e estabelecer relações renovadas e humanizadas, visto que, conforme nos ensina Han (2019, p. 191) “Menos ego significa mundo, e menos medo significa mais serenidade”.

Defendo que não percamos tempo e energia tentando justificar, tampouco tentando contrapor a lógica da estupidez e da insensatez que aborda vidas como objetos econômicos. Devemos ter em mente a ideia de que crises e tensões surgem para serem entendidas, enfrentadas e superadas, pois o sentido da vida não se esgota na satisfação imediata das meras carências, notadamente, quando estas carências são frutos da valorização do excedente e superficial. Lembrando o mestre Domenico de Masi (2000) o tempo livre que foi delegado à humanidade ou conquistado por ela pode e deve ser bem aproveitado, jamais azedado em abatimento letárgico.

Assim sendo, conclamo a todos/as a, diante do momento de crise profunda que nos atinge frontalmente, nos apropriarmos dos novos cenários possíveis, de confinamento e isolamento social, mas não afetivo como querem alguns, de rearranjos temporais e geográfico-arquitetônicos, para refletirmos acerca das amplas possibilidades de reinventarmos a vida em sociedade, de revermos conceitos impostos pela lógica extremista econômica do capital, de enxergarmos a nós mesmo enquanto protagonistas na dinâmica do mundo e elegermos como humanidade central modos de vida em que a compaixão, a solidariedade e a cooperação sejam valores caros, a simplicidade e a leveza sejam relocadas ao centro, relegando o luxo e a ganância ao passado que nos levou à crise e permitiu o estabelecimento do caos, afinal viver é preciso sim e atingir a velhice significa ter acumulado saberes e experiências fundamentais, vias iluminadas para os mais novos se guiarem e não meras peças que podem ser enjeitadas. Que sejam descartadas, repudiadas e rejeitadas ideias imbecilizadas e ocas de inteligências, próprias do fanatismo-ideológico extremista que paira tenebrosamente sobre nossas mentes em tempos atuais.

Robson Carlos da Silva

Teresina/PI, 18/04/2020

Notas

1 Referente a tornar viral, fazer com que algo seja compartilhado por um grande número de pessoas, por exemplo, uma pessoa posta um vídeo de uma briga pessoal; o vídeo da briga é acessado por milhares de pessoas que o reproduzem; aquela situação vergonhosa se viralizava pela internet. É um termo que surgiu com o crescimento do número de usuários das redes sociais e blogs.

2 Ozymandias é a personagem heróica de Adrian Veidt, da novela gráfica Watchmen, escrita pelo roteirista Alan Moore e desenhada pelo artista Dave Gibbons, publicada no Brasil de setembro de 1986 a outubro de 1987, e que traz uma releitura do universo de Super Heróis e considerada umas das histórias em quadrinhos mais influentes de todos os tempo e um best seller não somente dos quadrinhos mas de toda a cultura pop.

Referências

CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. o Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

CÉSAIRE, Aimé. Discursos sobre o Colonialismo. Santa Catarina: Letras Contemporâneas, 2017.

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2017.

EL PAÍS, jornal global. Pandemia de coronavírus: últimas notícias sobre o coronavírus no Brasil e no mundo, São Paulo, 18/04/2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-17/ao-vivo-ultimas-noticias-sobre-o-coronavirus-no-brasil-e-no-mundo.html. Acesso em: 18 abr. 2020.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 26. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1987.

HAN, Byung-Chul. Bom Entendimento. Petrópolis/RJ: Vozes, 2019.

HAN, Byung-Chul. No Enxame: perspectivas do digital. Petrópolis/RJ: Vozes, 2018.

DE MAIS, Domenico. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

MOORE, Alan; GIBBONS, Dave. Watchmen. São Paulo: Panini, 2009.

Fonte da ilustração na capa:

Gunduz Aghayev (https://geekness.com.br/controversias-da-sociedade-pos-moderna/)

2 comentários sobre “REFLEXÕES SOBRE A URGÊNCIA DE SE NEGAR E DESCARTAR, NÃO VIDAS, MAS AS IDEIAS FANÁTICO-IDEOLÓGICAS E TENEBROSAS

  1. Delano Igo da Paz Sousa ( Carametade)

    O projeto evoluiu muito e ultrapassou barreiras e dimensões! Parabéns a todos! Essa crise nos trouxe sim essa reflexão interna e social… Esperamos que as pessoas melhorem e nossa Capoeira sempre evolua para ajudar a sociedade!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s