PEGAR TREINO: um jeito, um costume uma forma de se perpetuar a camaradagem na capoeira

A categoria que pretendo abordar trata-se do “pegar treino”, oriunda plenamente das relações cotidianas de práticas da capoeira, muito embora não seja exclusiva dessa arte, pois tudo indica que em outras modalidades de lutas é quase certo que se use tal categoria.

Surgiu, portanto, no contexto das práticas, nos treinos de capoeira, sendo, assim, um fenômeno próprio dos saberes que constituem essa arte, da epistemologia da capoeira, um saber popular, comum, de natureza oral e gestual, cuja abordagem é eminentemente subjetiva, intangível, não tem como se medir ou quantificar, nem se encontrar em livros, visto situar-se, conforme dissemos, nos atravessamentos e cruzamentos dos diversos saberes, práticas, gestos, oralidades, costumes, teias relacionais (KOHL, 2012), ritos e rituais, falares e dizeres, dentre outros, que compõem esse código humano e social, essa Pedagogia da resistência, rebeldia e afirmação (SILVA; MOURA; SILVA, 2018) conhecida como capoeira.

Pegar um treino compreende, no universo da capoeira, o caráter ou característica que diz respeito ao diálogo que marca sua prática, assim como, a integração e a camaradagem apregoadas comumente, considerado um aspecto marcante e fundamental por todos/as. O que pretendo dizer é que a capoeira nunca foi uma arte de individualismo, em seu jogo, uma criação simbólica (SILVA, 2015), sempre deve haver um diálogo, que se propaga, se alarga pelo espaço das rodas, envolvendo a todos/as, jogadores, componentes da roda e a assistência.

Neste sentido, a categoria serve para demarcar e esclarecer alguns pontos e ajuda a todos/as a entender que nem sempre pelo simples fato de fazer um treino em escolas diferentes caracteriza alguém como aluno/a e discípulo/a de determinado Professor/a ou Mestre/a. A origem do termo se configurou quando alguém, pela camaradagem e seguindo o sentido coletivo da capoeira, resolveu fazer uma ou algumas aulas com outra pessoa que não seu/a professor/a, caracterizando, assim, o “Pegar um treino”, fazer uma aula diferente, em um contexto diferente de sua escola e em cenários que não os de cursos ou oficinas, simplesmente fazer uma aula e participar de um treino diferente, além de jogar e trocar ideias, rever amigos/as e dentre muitas outras coisas.

“Pegar um treino” é uma prática comum e bastante utilizada por capoeiristas camaradas e que não se veem como donos de um saber secreto e superior aos demais, tampouco enxergam em seus/as alunos/as pessoas submissas e que não possuem vontades e escolhas próprias. Hábito de quem acredita que o diálogo e interação entre formas diferentes de capoeira enriquece e engrandece seus/as discípulos/as, de quem realmente acredita na liberdade.

Essa categoria nos ajuda e evidenciar que por “Pegar um treino” a pessoa não se caracteriza como aluno/a de alguém, visto que para ser aluno/a faz-se necessário uma série de fatores, tais como efetivar a matrícula, frequentar cotidianamente aos treinos, usar e difundir a marca do grupo, especialmente nos treinos e em exibições, seguir os ritos e rituais do grupo, criar um vínculo que o identifique a determinada escola.

Como se percebe, trata-se de uma prática totalmente diferente de “Pegar um treino”, visto ser uma prática institucionalizada, registrada e consentida entre as partes. Por outro lado, “Pegar um treino” mesmo sendo consentida entre as partes, de forma alguma é institucionalizada, sendo muito mais um pacto consentido, um costume antigo, uma camaradagem, uma tradição no sentido de Hobsbawm (2012) .

Assim sendo, concluindo essa reflexão, conclamo aos capoeiristas que fiquem atentos e se apropriem dessa e de outras categorias, para não se deixar levar pelo hábito inelutável de alguns, que se julgam supremos detentores dos saberes da capoeira, em sempre querer que todo mundo seja ou já tenha sido seu aluno/a.

Essa a contribuição que quero deixar por meio desse texto, a necessária atitude da reflexão constante, própria da busca incessante pelo conhecimento, do querer saber que nunca se esvai e da manutenção da camaradagem que por si só se constitui em um costume, um jeito, uma forma, intangível e complexamente codificada, de difícil entendimento para quem não a conhece, porém muito fácil para quem a pratica, pois, assim como na vida, na roda, jogar é preciso, para que se possa entender o âmago dessa prática, que não se esgota num gesto, num toque, numa cantiga ou em outro movimento, mas na afluência dessas e de muitas outras possibilidades, num constante recriar e reinventar. Só jogando pra se saber, vamos Pegar um treino?

Robson Carlos Silva

Referências

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. 2. ed.

São Paulo: Paz e Terra, 2012.

KOHL, Henrique Gerson. Educação e capoeira: figurações emocionais na cidade do Recife-Pernambuco-Brasil. Recife, 2012. 390f. Tese (doutorado)-UFPE, Centro de Educação, Programa de Pós-graduação em Educação. Recife, 2012.

SILVA, Robson Carlos da; MOURA, Cândida Angélica Pereira; SILVA, Rafael Bruno Ferreira. Capoeira e Pedagogia Rebelde: reflexões acerca da roda de rua como resistência. Capoeira – Revista De Humanidades E Letras, v. 4, n. 02, p. 85-97, 2018.

SILVA, Robson Carlos. Jogo, Espaço Cultural e Criação Simbólica: reflexões acerca do jogo de capoeira. Revista Fênix, v. 12, ano XII, n. 02, p. 85-97, 2015, p. 01-20.

2 comentários sobre “PEGAR TREINO: um jeito, um costume uma forma de se perpetuar a camaradagem na capoeira

  1. Reflexão importante e bem fundamentada, dentro e fora das rodas da vida, da capoeira, e do viver capoeira.
    Realmente, Mestre Bobby, jogar é preciso, pois o grande barato, o que nos faz maravilhado é saber que a cada necessidade as possibilidades serão múltiplas…. imprecisas…. Afinal, uma grande travessia.

    Curtido por 1 pessoa

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