Projeto Pedagogia Experimental

O projeto Pedagogia Experimental, idealizado, criado e coordenado por Mestre Bobby, nasceu durante o período de quarentena imposto pela pandemia do Covid-19, o que exigiu formas diferentes de comunicação, assim como de formação e troca de ideias, o que nos levou a desenvolver protocolos voltados a encontros online com o escopo de reunir as pessoas para treinos, conversas e debates, além de atividades de formação teórica. Foi criado em 28 de maio de 2020 e tem, na capoeira, sua função, intenção e fundamentação.

Arquivo Pedagogia Experimental, 2020
Pedagogia da Capoeira. Fonte:Arquivo Pedagogia Experimental, 2020

Dentre seus princípios básicos, a capoeira carrega o princípio da ginga, não um simples movimento, mas uma epistemologia, uma concepção ou cosmovisão de mundo, uma racionalidade centrada no equilíbrio e no movimento constante, cujo princípio motor são a malícia, a mandinga e a inventividade, caracterizadas na capacidade de improvisação constante, dinâmica e, acima de tudo, surpreendente, em que o certo na hora errada é um erro e o errado na hora certa é um acerto (SILVA, 2016). Gingar, é saber fingir, enganar e fugir, reelaborar estratégias e contra-atacar, não somente no jogo da roda de capoeira, mas, sobretudo, no jogo da roda da vida, afinal, quem é capoeira não cai, escorrega! 

A partir dessa concepção, a capoeira pode ser pensada enquanto uma pedagogia, um movimento humano em que a intencionalidade tem papel central, caracterizando, assim, seu aspecto pedagógico. Nasce da resistência, pois resiste às violências engendradas pelo colonizador branco europeu e invasor do Brasil que, em busca de riqueza e exploração, escraviza e transporta parcelas inconcebíveis do povo negro africano e, aqui chegando, os explora ao limite das possibilidades humanas, ao que, este povo se revolta e resiste. Em seguida, se dinamiza em ações de rebeldia, caracterizando uma pedagogia da rebeldia, em que o povo negro se rebela, nega e se contrapõe às violências que lhes são impostas, cria métodos e códigos de contraposição, sustentados em suas culturas orais e gestuais e foge, continua fugindo e, até os dias atuais, ainda precisa fugir dos racismos e preconceitos (SILVA, 2010). Finalmente, num movimento que ainda se alarga e se expande, porém, agora mundialmente, afirma-se, afirma suas identidades, pertencimentos e ancestralidades, solidificando as avenidas dos trânsitos diaspóricos do povo africano ao Brasil, não mais negando essa terra, mas se afirmando enquanto povo, cultura, etnia e sujeito central do legado fundacional do Brasil, caracterizando o terceiro movimento pedagógico, a pedagogia da afirmação.

Neste sentido, o que a legitima enquanto pedagogia da resistência, rebeldia e afirmação é exatamente seu protagonismo nessa jornada do povo negro no Brasil, enquanto ferramenta, artefato e código humano, oral e gestual, de luta, combate e defesa, de forma objetiva e positiva, o que, ouso afirmar, a constituiu numa das principais, senão a principal, arma de luta do povo africano contra as violências coloniais dos povos brancos europeus em seu processo de invasão e exploração dessas terras, hoje Brasil. (ESCRITOS PERIFÉRICOS, 2020).

É nesse entendimento, na costura dessas ideias e entendimentos que a capoeira segue na lida cotidiana por reconhecimento e valorização, cujas vozes, corpos e ações partem da periferia, das margens e ganham o mundo, atraindo pessoas das mais diversas nacionalidades, concepções, etnias, gêneros, idades, culturas, classes sociais, condições financeiras, formações intelectuais, dentre outras, que imergem em seu universo e contribuem para que hoje seja uma das práticas mais admiradas e realizadas no mundo todo. A simplicidade de sua prática, que exige somente o corpo humano, pode ser expressa e apreendida na voz sábia de seus mestres que afirmaram e afirmam, “Capoeira, é Capoeira” e nos levam, a partir da singeleza e profundida dessa concepção, afirmar, Capoeira é Capoeira, uma só, única e incorruptível, porém vasta, repleta de possibilidades e excepcionalmente diversa em suas manifestações, quase impossíveis de serem ajustadas ou esgotadas em suas possibilidades. Sendo essa diversidade inesgotável que a torna única e admirada no mundo todo, tornando-a forte e inexaurível.

Os Eixos e protocolos (método)

As agendas giram em torno de dois eixos: práticas e teoria. O eixo práticas constitui-se em dois encontros semanais, quartas (19:30) e domingos (17), com aulas de capoeira, envolvendo o exercício contínuo e dinâmico de movimentação básica e aprimoramento técnico da capoeira, aliados ao fortalecimento das características da forma, ou formato, Escola Mestre Bobby, centrado, sobretudo, no jogo solto, com continuidade, visão e ocupação espacial adequada a cada tipo de jogo, explosão e objetividade nos golpes, plasticidade na movimentação geral, suavidade no desenvolvimento do jogo e leveza nas entradas e saídas.

Forma de jogar Mestre Bobby. Fonte: Arquivo NUPHEB/UESPI

A opção pelo conceito de jogo predomina, porém, não nega conceitos e compreensões outras, tais como, vadiação e brincadeira. Este eixo prever, ainda, aulas e oficinas sobre temáticas que contribuam para o desenvolvimento dos praticantes, envolvendo protocolos sobre treinamento desportivo, alimentação, postura corporal, relaxamentos, alongamentos, solturas, meditações e outras possibilidades conforme agendas propostas por qualquer componente e aceita pelo coletivo.

O eixo teoria se sustenta na apresentação de temáticas teóricas, amparadas em fontes rigorosas, tais como documentos, registros imagéticos de imagens paradas e em movimento, relatos orais transcritos, textos de pesquisas acadêmicas ou sociais, cartas, atas, jornais, revistas, dentre outros, com predominância do método de cruzamento entre as fontes.

As temáticas consistem de informações acerca da capoeira, suas origens e histórias, escolas tradicionais e contemporâneas, nomenclaturas e fundamentos básicos, ritos e rituais, personagens, lugares e locais, cantos e cantigas, musicalidades e instrumentalização, questões de gênero, etnia, classe sociais, cultura, infância, contemporaneidade, poder e políticas, dentre muitos outros.

O protocolo central é o estudo de material sugerido e enviado previamente, via Whatsapp, para leitura, aprofundamento e interpretação, seguido de encontro online para discussões sobre o tema, iniciando com uma fala para exposição do tema, de 40 minutos e, em seguida, abertura para os posicionamentos e questionamentos. Como avaliação, é solicitado uma produção acerca do tema, com posicionamento crítico e pessoal. Ao final, pretende-se elaborar uma produção coletiva, para publicação e que servirá de material de pesquisas futuras.

Avaliação 

Inicialmente, o projeto é interno, disponível somente para os componentes da Escola de Capoeira Mestre Bobby, mediante convite por algum aplicativo de reuniões online postados no grupo de Whatsapp do projeto, com previsão para expansão futura a pessoas convidadas.

Os primeiros encontros tiveram sucesso e serviram de fundamentação para algumas propostas que visam aperfeiçoar as práticas. Foram elas: quem ministrar as aulas deve demonstrar os movimentos ou se utilizar de somente um guia dentre os participantes, no intuito de que as pessoas participantes concentrem sua atenção em somente um ponto na tela, visto que não é possível visualizar todos ao mesmo tempo; cada aula terá dois momentos, intercalados entre si, durante a atividade, sendo uma módulo básico, para iniciantes e um módulo adiantado, para os iniciados; sempre após as aulas, há um bate papo entre os participantes.

Referências

SILVA, Robson Carlos. As Narrativas dos Mestres e uma História Social da Capoeira em Teresina/PI: do pé do berimbau aos espaços escolares. Curitiba: CRV, 2016.

SILVA, Robson Carlos. Capoeira: o preconceito ainda existe? Porto Alegre: Armazém Digital, 2010.

Apêndices

A – Registros do Projeto pedagogia Experimental

Prof. Pós-Dr. Robson Carlos da Silva (Mestre Bobby) 

6 comentários sobre “Projeto Pedagogia Experimental

  1. Peruka

    Igualmente tudo que fazemos existe a área prática e teórica, a escola de capoeira mestre Bobby contém as duas partes sem falhas, os dois aprendizado são essenciais para o desenvolvimento e evolução da capoeira e para formação de um capoeirista, posso falar isso com toda convicção, hoje vejo muita na capoeira atual somente prática e pouca teoria onde é um erro grande! É com grande admiração e respeito estar ao seu lado aprendendo cada dia mais teoria e prática da capoeira

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  2. José Gonçalves Cordeiro Neto

    A síntese da essência da capoeira expressa em formato textual e concretizado na reinvenção dos procedimentos de resistência.

    Esse projeto está fortalecendo todos nós, enquanto Escola de Capoeira e seus discípulos.

    Iê, viva meu Mestre Bobby!

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  3. Olimpio Ferreira

    Proposta muito bem fundamentada nos saberes populares e conhecimentos acadêmicos. É preciso se reinventar diante de crises e deixar fluir o movimento da Capoeira, pois ela se nega à submissão de qualquer ordem. Certamente, a experiência deixará rastros do momento que vivemos.

    Curtido por 1 pessoa

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