SOBRE ESTILOS E FORMAS NA CAPOEIRA

Sobre o debate mais ou menos recente acerca dos possíveis estilos de capoeira, defendemos que existam, muito mais do que estilos, formas diversas de se “jogar capoeira”. Sobre estilos, tentaremos trazer uma reflexão a partir das leituras nos campos em que nos movemos, movimento esse atravessado por outros interesses, jamais isentos, diga-se. Ao invés de estilo de capoeira de modo genérico, macro, optamos por escola de capoeira; enquanto estilo de modo pessoal, micro, optamos por forma, formas de se expressar, formas de se jogar.

De acordo a Enciclopédia Itaú Cultural (ENCICLOPÉDIA, 2020), estilo, é um conceito que deriva do latim stilus que significa um instrumento de metal pontiagudo usado para escrever ou desenhar, é oriundo do contexto da história da arte e remete ao significado, bastante amplo e vago, de um grupo de características aproximadamente contínuas e estabelecidas que facultam a identificação da arte produzida em determinado período histórico, uma região, um artista ou um grupo de artistas, de determinada fase em sua carreira ou mesmo de uma corrente estética, autorizando que se correlacione uma obra à sua origem.

No contexto das obras de artes uma análise de estilo pode favorecer a oportunidade de se precisar a autoria ou origem temporal e geográfica de um objeto, tal como uma assinatura, uma datação ou uma descrição literária associando o objeto a um autor, local ou contexto histórico.

Com o tempo passou a designar uma maneira especial de fazer qualquer coisa, sendo estudado por vários teóricos e variando entre a ideia de uma vontade artística ou formativa que levava ao entendimento de que cada época tem o seu próprio estilo, e as ideias que associam estilo a aspectos de forma e de técnica. Não chegando a uma teoria consistente, o conceito foi perdendo força, terminando por ser substituído pelo de poética. Em tempos Pós-Modernos o conceito vem recebendo nova atenção como um elemento importante na compreensão da obra de arte, o mesmo ocorre na capoeira recentemente. O jogo da capoeira envolve sentimentos e emoções tornadas possíveis quando os gestos executados são atravessados de histórias, resultando em um processo contínuo de reconstrução dessas histórias por meio das possíveis e complexas formas de agir que os corpos livres passam a ter.

Em relação à capoeira, nossa análise verifica que quando se recorre ao conceito estilo há uma tentativa de situar de forma fechada e determinada um grupo de características, principalmente no jogo, constantes e estabelecidas, irrefutáveis ou invioláveis, que outorga a distinção de determinado grupo ou escola, da forma como seus componentes jogam, além de, fundamentalmente, associar o estilo com sua origem, com seu criador, este por sua vez, em um movimento que nos aproxima de Becker (2013, p. 305), acreditando ter a fórmula para vencer as limitações da vida, tenta de todas as formas possíveis “[…] conquistar seguidores para sua patente particular”.

Devemos entender que a capoeira dita moderna, atual ou  contemporânea, enquanto um fenômeno sociocultural urbano, nasceu como instrumento de resistência social, assumindo protagonismo no tempo em que valentia era sinônimo de notoriedade e fama (SOARES, 2002; SANTUCCI, 2008), possivelmente não havendo lugar para se pensar em estilos a partir do entendimento que temos hoje.

Falando em modernidade, trazemos à tona as ideias de Habermas  (1992), em que modernidade está associada a uma consciência temporal, que interliga o moderno ao antigo, nutrindo uma concepção histórica processual da vida, cujo cenário remete a um futuro imprevisível. A ideia desse teórico acerca da modernidade está incorporada em sua Teoria da Ação Comunicativa, a qual se debruça sobre a origem da sociedade ocidental moderna, descrevendo seus problemas e propondo correções, notadamente por meio da associação entre a perspectiva subjetiva do mundo vivido e a perspectiva objetiva, servindo-se de um conceito de racionalidade, a partir da perspectiva da emancipação da razão, que permita reinvenções de novos caminhos de pensamentos e novos questionamentos, por sua vez contribuindo para a emersão de novas leituras de mundo.

A modernidade, neste sentido, é compreendida como um projeto inacabado, uma modernidade tardia. Assim sendo, podemos, ancoradas na concepção de racionalidade comunicativa de Habermas (1992) e para além dos rótulos que impregnam a prática da capoeira atual, em contraposição às capoeiras antiga e tradicional, como querem algumas pessoas, retomar a denominação de capoeiragem para a prática e de capoeira para seus praticantes, sem prejuízo algum, independente do sentido que se atribua.

Além do que, as expressões culturais são praticadas e ensinadas de forma espontânea em diferentes espaços sociais e assumindo uma forma de institucionalização própria, particular, porém, marcadas de aspectos peculiares de natureza prazerosa e educativa, formando verdadeiras escolas, inclusive empregando a denominação de escola e difundindo sua função pedagógica, caracterizando uma educação não-formal, sem seguir estruturas fechadas, formalizadas ou cercadas de métodos mecanicistas (CENDALES, 2006) e que, não podemos negar, estão sustentadas numa racionalidade inventiva, criativa e imaginativa.

Pensamos que estilo, nesse sentido, tem uma  conotação de fechamento e carrega consigo sempre a figura de um criador o que, ainda mais agravante, define uma uniformidade entre todos/as os membros de determinado estilo, na verdade uma concepção errônea e uma interpretação incompleta e sem fundamento, pois basta que se aprofunde no universo da capoeira para perceber que não se encontra um jogo que seja perfeitamente igual a outro, à forma de outra pessoa jogar, predominando, isso sim, influição e inspiração mútuas, dada a convivência e admiração de quem aprende em relação a quem ensina e aos mais adiantados nesse conhecimento.

Na capoeira, assim como na vida, seguindo Becker (2013, p. 305), o que a maioria das pessoas comumente faz, ao menos em sua iniciação, é “[…] seguir as ideias de determinada pessoa, e depois as de outra, dependendo de quem se destaque mais no seu horizonte na época”, e nós procuramos acomodar os nossos ideais a ele.

Na capoeira, inclusive, não raro se afirma que alguém “fez escola”, significando que o seu jeito de jogar, tocar ou cantar inspiraram e inspiram novos praticantes que, aos olhos dos leigos nessa arte, dos que olham de longe, mas não enxergam o que só se ver de perto, jogariam igual à pessoa na qual se inspiraram.

É um problema comum, visto que, num contexto de rivalidades e interesses desprezíveis de poder e heroísmo (BECKER, 2013), não raro se escuta o discurso de que tais capoeiras de determinado grupo jogam todos do mesmo jeito, quando joga já se conhece de qual grupo pertence, caracterizando uma profunda falta de percepção e capacidade analítica, além da ausência de sensibilidade e intimidade com arte que pratica.

Estilo, ao que parece, é um conceito fechado, incompreendido, complexo e não adequado, ao menos até o momento, para a capoeira, pelo que entendo ser mais adequado o conceito de forma, ou seja, são formas de se fazer capoeira, formatos diversos, concepções, dados livres, abertos às possibilidades, que não podem ser atrelados a um criador único, podendo ser acessado e utilizado por quem desejar.

Ao se tratar de formas, todos podem criar, inovar, reler, reelaborar, sem a necessidade ou a precisão de nomear o dono, o criador, pois trata-se de maneiras coletivas de se abordar e se expressar em determinada arte, sendo as possíveis releituras formas livres de se interpretar, em que a base fundamental comum segue a mesmo, ou seja, é capoeira, continua sendo capoeira e não, um novo estilo de capoeira.

No entendimento de Rêgo (1968), indispensável para quem deseja aprofundar estudos sobre inovações e modernizações na capoeira, as diferenças na forma do jogo entre os possíveis estilos de capoeira angola e regional, à época de suas análises, são quase imperceptíveis, sendo que, segundo Vassallo (2003), houve movimentos de modernização e mudanças nos formatos em ambas as escolas, tanto a regional de Mestre Bimba, quanto a angola de Mestre Pastinha, desnudando a ideia da existência de uma possível capoeira autêntica, pura, mais tradicional e, portanto, mais verdadeira. Neste sentido, não havendo distinção de pureza e autenticidade entre as escolas, logo podemos depreender que a insistência na questão dos estilos não se sustenta, ou ao menos não é tão urgente, tampouco se trata de pauta indispensável na agenda das discussões basilares na capoeira.

Admitir ou não certo estilo, se identificar pertencente ou não a tal estilo não fará com que a prática da capoeira se dissipe ou desfaleça. Questões mais urgentes necessitam de olhares e reflexões mais imediatas e rigorosas. Novamente Becker (2013) nos ajuda a refletir ao comentar que, se referindo à busca humana incessante por superação de sua finitude, o máximo que cada um de nós podemos fazer é criar alguma coisa, sendo, ao que parece, ser este sentimento, essa pressa desvairada a lugar nenhum, que move a muitos, que escoam suas forças e energias, segundo Han (2015), vivendo uma vida de cansaço e a serviço do adestramento do corpo e da captura de desejos, com preocupações menores e, por que não, desnecessárias, afinal a roda continua e jogar é preciso!

Robson Carlos da Silva (Mestre Bobby)

Referências

BECKER, Ernest. A Negação da Morte: uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. 6. ed. São Paulo: Record, 2013.

CENDALES, Lola; MARIÑO, Germán. Educação não-formal e educação popular: para uma pedagogia do diálogo cultural. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

ESTILO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3184/estilo. Acesso em: 05 de mai. 2020. Verbete da Enciclopédia.

HABERMAS, Jürgen. Modernidade: um projeto inacabado. In: ARANTES, O.; ARANTES, P. Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas. São Paulo: Brasiliense, 1992.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis/RJ: Vozes, 2015.

RÊGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio socioetnográfico. Salvador/BA: Itapuã, 1968.

SANTUCCI, Jane. Cidade rebelde: as revoltas populares no Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Festa e violência: os capoeiras e as festas populares na corte do Rio de Janeiro (1809-1890). In: CUNHA, Maria Clementina Pereira. (org.). Carnavais e outras f(r)estas: ensaios de história social da cultura. Campinas-SP: Editora da UNICAMP: CECULT, 2002, p. 181- 309.

VASSALLO, Simone Pondé. Capoeira e Intelectuais: a construção coletiva da capoeira “autêntica. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 32, 2003, p. 106- 124.

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